
Hélio de Carvalho Garcia governou Minas por dois períodos (1984/1987 e 1991/1995) e deixou marcas em algumas obras de vulto, mas, sobretudo, pelo estilo muito pessoal e quase sempre imprevisível de fazer política. Na primeira vez, foi eleito vice-governador na chapa do partido de oposição, o PMDB, encabeçada por Tancredo Neves, em 1982, nas primeiras eleições estaduais que se realizavam em 17 anos, desde que os militares extinguiram os pleitos diretos nos Estados. Um ano e meio depois, derrotado o movimento Diretas Já, Tancredo deixou o Palácio da Liberdade para disputar as eleições presidenciais e o vice Hélio Garcia assumiu a 14 de agosto de 1984. Além de sucedê-lo, Hélio seria um dos articuladores da vitória de Tancredo Neves, que empolgaria o Brasil, mas o frustraria em seguida com a sua morte inesperada.
Hélio governou Minas sem o apoio que imaginava de Tancredo no Governo Federal, até 15 de março de 1987, quando passou o cargo ao governador Newton Cardoso, que ajudou a eleger, embora não fosse o candidato de sua escolha pessoal. É o que faria também Newton, após completar os seus quatro anos de mandato, em 15 de março de 1991: passaria a faixa para Hélio Garcia de novo, que retornava à política depois de um de seus exílios voluntários na sua Fazenda Santa Clara, em Santo do Amparo, vencendo disputadíssima eleição de dois turnos i contra o adversário Hélio Costa, para governar Minas até 1º de janeiro de 1995.
O Doutor Hélio, como era chamado por admiradores, ganhou então a fama de não perder eleições e fazer sempre os seus sucessores. Em 1982, quando empossado vice-governador, Hélio Garcia foi também nomeado, por Tancredo, prefeito de Belo Horizonte i, cargo que exerceu por mais de um ano e, uma vez restabelecidas as diretas nas capitais, elegeu o considerado azarão da disputa, Sérgio Ferrara, para sucedê-lo. Assim, parecia mesmo contar com a sorte nessa carreira singular que o levara à Prefeitura da capital e, por duas vezes, ao Governo de Minas.
Parlamentar, mas sem discurso

Hélio Garcia nasceu em 16 de março de 1931, em Santo Antônio do Amparo, à época distrito de Bom Sucesso, filho de Júlio Garcia, proprietário rural e também político da região, e de Carmelita Garcia, que era filha de Antônio Carlos de Carvalho, signatário do Manifesto aos Mineiros e fundador do Banco de Minas Gerais. Júlio Garcia foi prefeito de Perdões, também no Sul do Estado. Hélio fez o ginasial em Lavras, no Instituto Cammon, e o científico em Belo Horizonte, no Colégio Santo Agostinho. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, onde já demonstrou o gosto pela política, engajando-se nos movimentos estudantis. Logo se filiaria à UDN.
Formado advogado em 1957, voltou a Santo Antônio do Amparo e a Perdões, município que visitava com frequência, participando de movimentos ruralistas i. Foi também secretário-geral da Federação da Agricultura do Estado de Minas Gerais - Faemg por dois anos. Em 1962, por influência do pai e do governador Magalhães Pinto, candidatou-se a deputado pela UDN, sendo eleito e empossado a 1º de fevereiro de 1963. Conta o jornalista José Resende Júnior i que Magalhães antecipou a carreira do jovem candidato naquela época: “Ele parece meio caipira, usa calça de uma cor e paletó de outra, mas vai longe...” Hélio manteria o estilo próprio de trajar e era considerado atraente pelas mulheres. Casou-se com Margarida Maria Silésio Garcia, com quem teve três filhas: Adriana, Andréa e Daniela, e divorciou-se na década de 1980.
Na Assembléia Legislativa, integrou as comissões de Constituição, Legislação e Justiça e de Assuntos Municipais e acabou por ser líder do Governo Magalhães Pinto. Avesso a discursos, mas hábil nas negociações e leal aos companheiros, exerceu com êxito a liderança de governo. Desculpava-se dizendo que por melhor e mais eloquente que fosse um discurso, não mudava voto de deputado e por isso confiava mais nas conversas de bastidores. Durante dois meses, em julho e agosto de 1965, assumiu a Secretaria de Estado do Interior e Justiça, a pedido do governador.
Naquele mesmo ano, candidatou-se a deputado federal e foi eleito para a Câmara, aos 35 anos. A 27 de outubro, o então presidente Castelo Branco editou o Ato Institucional nº 2, que extinguiu as eleições diretas nos Estados e os partidos políticos. Instituído o bipartidarismo, com a ARENA, governista, e o MDB, de oposição, Hélio seguiu os chefes da UDN - era homem de confiança de Magalhães Pinto - e se tornou arenista.

Concluiu o seu mandato em 1968, no período de maior repressão da ditadura. Embora tivesse dado apoio incondicional ao golpe militar, estava desiludido com o rumo que o movimento havia tomado e afastou-se da política, sem tentar nova eleição, dedicando-se à construção civil e à agropecuária. Cinco anos depois, entretanto, aceitou o convite, feito pelo governador Aureliano Chaves, para presidir a Caixa Econômica Estadual. Deixou a Presidência da autarquia, após três anos, em 1978, e se candidatou novamente a deputado federal, ficando entre os cinco mais votados do Estado. Especulou-se que desejava ser indicado prefeito de Belo Horizonte pelo novo governador, Francelino Pereira, o que não aconteceu i. Na Câmara dos Deputados, em 1981, ele apresentou emenda constitucional, derrotada, tentando restabelecer eleições diretas nas capitais.
Um dos fundadores do PP
Na sequência dos atos do presidente Ernesto Geisel, sobretudo no último período de seu governo, o seu sucessor, general João Baptista Figueiredo, continuou o lento processo de redemocratização. Era um período efervescente, com a volta de lideranças políticas, a partir de 1979, com a promulgação da Lei da Anistia, e o restabelecimento de direitos políticos. Assim, a permanência de apenas duas legendas partidárias tornara-se impraticável e a Lei nº 6.767, de dezembro de 1979, reformou vários dispositivos da Lei Orgânica dos Partidos Políticos. Mas a estratégia governista era clara: manter o controle sobre a lenta abertura política i. Espremida no MDB, a oposição se fragmentaria.
Entre janeiro e maio de 1980, seis novos partidos foram organizados. O PDS foi o sucessor da ARENA, com a adesão de grande parte de seus integrantes. O PMDB, acrescentando apenas o “P” ao MDB, herdou seu caráter amplo de oposição, enquanto Ivete Vargas i vencia a disputa pela sigla PTB, que Leonel Brizola queria como herdeira do trabalhismo de Getúlio e João Goulart, mas teve então de fundar uma nova, o PDT. Também nascia, do sindicalismo e dos movimentos sociais e populares o PT.
Hélio Garcia teria um papel importante na formação do sexto partido, o Partido Progressista - PP, que pretendia ser uma oposição moderada, equidistante do PDS e do PMDB, com nomes como do ex-ministro da Justiça, Petrônio Portela. Em Minas, que seria seu principal sustentáculo, o PP reunia dois históricos adversários políticos: Tancredo Neves, do antigo PSD e que optara pelo partido de oposição MDB em 1965, e Magalhães Pinto, da UDN, um dos artífices do golpe militar. “Eu sempre conversei com os dois e partilhava da inquietação deles com relação ao futuro da política brasileira”, recordaria Garcia em 1987 i, sem negar ter sido um dos articuladores da inusitada união. Tancredo assumiu a Presidência Nacional do PP, enquanto Magalhães ganhou o título de presidente de honra do partido. O PP teria, entretanto, vida curtíssima.
Hélio Garcia mergulhou de cabeça na tarefa de fundar o partido em Minas. Assumiu a Presidência da Comissão Estadual Provisória do PP, que chegou a constituir os diretórios (comissões provisórias) em 470 municípios mineiros. Ele reportou, em entrevista, o seu empenho em localizar lideranças em cada município, viajar e garantir a organização partidária. i
O voto vinculado em 1982
Talvez por isso, Hélio tenha sido resistente quando Tancredo Neves disse-lhe da necessidade de que o PP se incorporasse ao PMDB. As condições tornavam-se adversas para as eleições de 1982 e Tancredo era candidato ao Governo de Minas. Temeroso do crescimento das oposições, mesmo divididas, o Governo Federal havia editado medidas casuísticas na Lei nº 6.978, que ganhou o apelido de Pacote de Novembro, aprovado em janeiro de 1982 por decurso de prazo: estavam proibidas as coligações, os partidos eram obrigados a disputar chapas completas de candidatos nos Estados - de vereador a deputado, senador e governador - e os eleitores proibidos de mesclar votos de partidos diferentes na cédula. Era o voto vinculado. Além disso, havia as restrições ao Horário Gratuito de Propaganda Eleitoral, desde a Lei Falcão, de 1976, que restringira os programas aos “santinhos” dos candidatos na TV e no rádio.
Para Hélio Garcia, contudo, a decisão não era fácil; Magalhães Pinto não iria para o PMDB, partido que também ele, Hélio, antes se opunha como filiado da ARENA. Assim, ele votou contra a proposta na reunião das executivas e chegou a pensar em deixar novamente a política, mas logo recuou diante dos fatos. Em fevereiro de 1982, a Convenção Nacional do PP decidiu pela extinção da legenda e pela fusão com o PMDB, antes de se submeter a um único pleito eleitoral. Tancredo Neves, por sua vez, sairia candidato a governador pelo PMDB, logo confirmado em convenção do partido. E para surpresa dos peemedebistas, indicou o recém-filiado Hélio Garcia como vice na chapa, vencendo resistências de quem defendia outros nomes, como o de José Aparecido de Oliveira, cujo perfil de ex-cassado se encaixaria melhor. Contudo, Hélio Garcia foi aprovado por unanimidade.
Na prática, voltava-se a um bipartidarismo virtual, com as demais oposições ainda inexpressivas eleitoralmente. Contra o voto vinculado, a população inaugurou o que apelidou “voto camarão”, sem cabeça, deixando em branco a opção para governador, quando eram fortes vereadores e prefeito do PDS no município. Resultado: Tancredo e Hélio foram eleitos ao Governo de Minas, Itamar Franco, também pelo PMDB, reeleito ao Senado, e o partido faria ainda as maiores bancadas para a Assembléia e para a Câmara dos Deputados.

Depois da posse em março de 1983, já no mês seguinte Tancredo enfrentaria novamente resistências para bancar o nome de Hélio Garcia como prefeito de Belo Horizonte, diante de uma série de políticos do PMDB considerados “candidatos naturais” ao cargo. O governador argumentava, em conversas particulares, conforme reportagem de jornal alguns anos depois, que “Hélio era o único político do PMDB capaz de obter, junto ao Governo Federal, as verbas necessárias para enfrentar os problemas da capital, especialmente, as enchentes do ribeirão Arrudas i”.
Na Prefeitura de Belo Horizonte
A indicação acabou referendada pela Assembléia Legislativa, mas renderia problemas políticos para Hélio no PMDB por muito tempo. E o prefeito iniciaria, realmente, a grande obra de canalização do ribeirão Arrudas. Foi autor, ainda, de inovadora reforma administrativa, que criou cinco novas secretarias, modificou a estrutura interna de diversos órgãos e criou as nove administrações regionais ainda hoje existentes.
Inaugurou, também, seu estilo pouco formal de governar. Não era assíduo no gabinete da Prefeitura - despachava, inclusive, em sua residência ou no gabinete de vice-governador - e afirmava que o político competente não precisa permanecer no posto o dia inteiro; sua receita era escolher as pessoas certas, “delegar e cobrar” tarefas, ficando atento para obter recursos. Às vezes, ele permanecia vários dias em Brasília. A oposição revidava afirmando que ele delegava sim, mas não cobrava. Foi nessa época, também, que ganhou o apelido de Dojão, porque, a exemplo do grande e pouco econômico automóvel Dodge Dart, ocupava duas vagas e tinha fama de beber muito. De fato, Hélio não escondia seu gosto pelas generosas doses de um bom uísque e que oferecia aos interlocutores.
Restabelecidas as eleições diretas para as prefeituras das capitais e estâncias hidrominerais, por meio da Lei nº 7.332, em 1º de julho de 1985, Hélio Garcia dirigiu a campanha do PMDB, indicando o deputado Sérgio Ferrara candidato. O PFL lançara Maurício Campos, que havia sido prefeito indicado pelo governador Francelino Pereira, com boa aprovação popular atestada pelas pesquisas que indicavam sua vitória, e o PT o economista Virgílio Guimarães. Mas a influência do governador foi maior e Ferrara venceu o pleito.
No Governo de Minas
É certo que Hélio Garcia garantiu a retaguarda para que Tancredo Neves pudesse trilhar sua caminhada nacional rumo à Presidência da República. Entretanto, não foi imediato seu apoio ao projeto do governador, que considerava “um salto no escuro”. Segundo Ronaldo Costa Couto, em “História indiscreta da ditadura e da abertura i”, Hélio teve duro diálogo com Roberto Gusmão, em abril de 1984, ambos já desiludidos quanto à aprovação da emenda das eleições diretas. Hélio sustentou que Tancredo não deveria ir ao Colégio Eleitoral porque Paulo Maluf, candidato do PDS, venceria, e ele não podia “largar tudo e sair candidato”. Gusmão retrucou:
“- Você está com medo de assumir o Governo de Minas e de enfrentar o Maluf.
- Não. Eu estou com o Tancredo, assim como você, mas ele não pode correr riscos, afirmou o vice i”.
Uma vez tomada a decisão, Hélio se empenharia, também assumindo riscos. E foi o apoio certo quando Tancredo se preparava para enfrentar as diversas conspirações, inclusive militares, que ameaçavam a campanha e a posse. Foi também um dos articuladores do chamado Acordo de Minas, formalizado em outubro de 1984, definindo critérios de convivência partidária entre o PMDB e o PFL. Tancredo assumia o compromisso de tratar “em pé de igualdade” os partidários do PFL no plano federal e Hélio garantia o mesmo no Estado, no interior e em Belo Horizonte, inclusive abrindo espaços para o partido no Secretariado.
Como governador, Hélio manteve o mesmo estilo informal e imprevisível. Era capaz de inaugurar uma obra com discursos de uma frase. Não reunia o Secretariado e deixava várias pastas sem titular ou acumuladas por um mesmo secretário, como aconteceu com Walfrido Mares Guia, que chegou a assumir por um período seis funções simultâneas. Mas seu governo conseguiu colocar em prática algumas das diretrizes do programa de Tancredo, que se chamava “Governar É”. Ampliou o segundo grau no interior - 350 escolas em 316 municípios - e introduziu a eleição, pela comunidade escolar, de diretoras das escolas, antes indicadas por deputados e prefeitos.
Promoveu a eletrificação rural em 80 mil propriedades, iniciou o plano de telefonia rural, instituiu o Programa de Associativismo Microrregional. Sua grande obra foi na malha rodoviária, com a construção de 4,8 mil quilômetros de estradas e a pavimentação de outras 8,4 mil vicinais i.
No sistema de crédito financeiro do Estado, deixou um quadro mais difícil do que encontrou. Tão logo entregou o governo a Newton, a Caixa Econômica Estadual foi liquidada extrajudicialmente.

Ao conduzir a sua sucessão em 1986, novamente surpreendeu. Quatro candidatos disputavam no PMDB, sendo o mais forte João Pimenta da Veiga Filho, com melhores condições de disputar com Newton Cardoso, que se recusava a desistir da candidatura e já deixara a Prefeitura de Contagem para ir à votação dos convencionais. Aproximando-se a convenção, o governador convocou a imprensa para anunciar no Palácio da Liberdade, repleto de lideranças e jornalistas, que “o meu candidato é Joaquim de Melo Freire”, então presidente do PMDB mineiro. O próprio Freire não conteve a surpresa na hora e, na manhã seguinte, retirou a candidatura, alegando que não queria desunir o partido. Concorreram na convenção Pimenta da Veiga e Carlos Cotta, mas Newton Cardoso venceu, para disputar com Itamar Franco, que deixara o PMDB, também sem apoio do governador, e se lançara candidato pelo Partido Liberal - PL.
Apenas um mês após a convenção, Hélio Garcia receberia o candidato Newton Cardoso, mas a partir daí arregaçou as mangas na campanha, acompanhou-o em viagens e ajudou-o a derrotar Itamar i. Sempre de “última hora”, Hélio dizia que as eleições, que na época ocorriam em novembro, definiam-se apenas “depois da parada”, isto é, após o sete de setembro.
Novamente governador
Em março de 1987, com a posse do novo governador, optou por mais um retiro voluntário e voltou a tocar sua fazenda em Santo Antônio do Amparo, já famosa pela bem cuidada cultura de café. Retornaria apenas em 1990, abrigando-se no pequeno Partido das Reformas Sociais - PRS, que criou para disputar o Governo de Minas. Venceu o pleito em dois turnos, no segundo contra Hélio Costa, e voltou ao Palácio da Liberdade em 15 de março de 1991. Faria também o sucessor ao final do mandato, apoiando a candidatura de Eduardo Azeredo. Como grande realização de seu segundo governo, deixou em curso as obras de duplicação da Rodovia Fernão Dias, que liga Belo Horizonte a São Paulo, viabilizadas com recursos federais que Hélio conseguiu junto aos presidentes Fernando Collor i e Itamar Franco.
Após cumprir o segundo mandato, em 1996, Hélio Garcia deixou a vida pública e permaneceu por mais dois anos refugiado na Fazenda Santa Clara. Anunciou, em 1998, que concorreria ao Senado, mas desistiu logo no início da campanha e abandonou definitivamente a política, esquivando-se de convites e entrevistas.