
O governador José de Magalhães Pinto possuía características físicas que o tornavam inconfundível em qualquer palanque: a sua tez era alva e a sua cabeça ovalada e inteiramente calva. Ele nasceu em Santo Antônio do Monte, cidade próxima a Divinópolis, em 28 de junho de 1909, e era o sexto filho de uma família conceituada, mas financeiramente modesta, que mudava com certa frequência de cidade. Foi um menino inteligente e estudioso que chegou, na cidade de Arcos, a vender legumes nas ruas, oferecendo em voz alta os produtos aos clientes. Mas que, com pouco mais de 30 anos, já era um banqueiro de prestígio. De seu primeiro nome José, veio o apelido, “Juquinha”, o mesmo do pai, como eram chamados pelos mais próximos.
Com determinação, vocação para os negócios e a política, e uma boa dose de sorte, ele construiu nada menos do que um império financeiro e uma intensa carreira política. Foi, por exemplo, secretário de Finanças no Governo Milton Campos e governador de Minas entre 1961 e 1966, ministro das Relações Exteriores, deputado federal e senador. Apesar de sua longa trajetória profissional, Magalhães Pinto sempre será lembrado por ter protagonizado dois episódios marcantes para o País, com objetivos contrastantes. O primeiro foi assinar o Manifesto dos Mineiros, em outubro de 1943, que contestava abertamente, pela primeira vez, o Estado Novo de Getúlio. O segundo episódio foi encabeçar o movimento civil do golpe de 1964, que levou o País a uma ditadura de mais de 20 anos.
Estas iniciativas tiveram desdobramentos inesperados. No primeiro caso, a perseguição política do interventor Benedito Valadares, correligionário de Getúlio, aos que assinaram o manifesto, que obrigou Magalhães Pinto a deixar o antigo emprego, no Banco da Lavoura. Assim, ficou livre para fundar, em 1944, o Banco Nacional de Minas Gerais i, a base para o seu futuro império financeiro. A perseguição também colaborou para que participasse da criação de um partido oposicionista, a União Democrática Nacional.

Já em 1964, a contribuição do governador Magalhães Pinto foi decisiva para a implantação do novo regime. Entretanto, ele logo percebeu que alguns militares açambarcaram rapidamente o poder, reduzindo a influência da liderança civil no movimento. Liderança que, em largos traços, desejava tanto sair da turbulência política e do risco da esquerdização do País, com João Goulart, quanto retornar logo que possível à democracia. Magalhães Pinto, então um banqueiro bem sucedido, havia apostado alto na reviravolta política: se tudo desse errado, poderia perder o patrimônio conquistado e até a própria vida. Apesar de seu império financeiro crescer à sombra da ditadura e de exercer diversos mandatos como deputado federal e senador, alcançando o Ministério das Relações Exteriores no Governo Costa e Silva, ele jamais satisfez o seu desejo recôndito de tornar-se presidente da República.
Durante o seu governo, aproveitou a experiência no setor bancário para criar, em 1962, o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais - BDMG. Foi ainda em sua gestão que começaram a operar a Bolsa de Valores de Minas Gerais e as empresas Eletrificação Rural de Minas Gerais - Ermig e a Metais de Minas Gerais - Metamig, esta última com o objetivo de estabelecer uma política de minérios no Estado. Criou também as secretarias de Ação Social, de Abastecimento e do Desenvolvimento Econômico de Minas.
Em outra frente, concluiu, em Belo Horizonte, as obras do estádio de futebol que leva oficialmente o seu nome, popularmente chamado “Mineirão”, originadas da Lei, nº 1947/1959, do então deputado Jorge Carone. O estádio não estava entre as prioridades do governo até que, em 1963, Minas conquistou o título de Campeão Brasileiro de Seleções. A inauguração ocorreu em cinco de setembro de 1965, com partida em que o time mineiro venceu o argentino River Plate por 1 a 0. Mas, fora o futebol, o clima na época era cada vez mais pesado. Um sinal disto ocorreu em sete de outubro de 1963, em Ipatinga, no Vale do Aço, quando trabalhadores morreram em um enfrentamento com a Polícia Militar. O País caminhava rapidamente para um grave impasse político, com a radicalização ideológica. Magalhães Pinto, de formação liberal, empresário e filho de católicos, não vacilou. Antes do golpe de 1964 já apoiava o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais - IPES, com sede no Rio, que buscava agregar as forças da direita contra “o avanço do comunismo soviético no Ocidente”.
Os primeiros tempos

Magalhães Pinto era filho de José Caetano de Magalhães Pinto, o coronel Juca Pinto, e da professora Maria Araújo de Magalhães Pinto, a Dona Maricota. O casal se casara no ano de 1900 e tivera, antes de Magalhães Pinto, quatro meninas e um menino, que morreu aos dois anos de idade, também batizado José. Católica fervorosa, de ir à igreja diariamente, Dona Maricota lecionava para mulheres desde 1904 na própria casa em que morava, em Santo Antônio do Monte, construída pelo marido. Prático em construção e também temente a Deus, o coronel havia coordenado a construção da segunda torre da matriz de Santo Antônio do Monte, inaugurada em 1906.
A família, depois do nascimento de Magalhães Pinto, se transferiu para a cidade de Formiga, a 78 quilômetros, carregando a mudança em dois carros de boi, segundo atestam Roberto Drummond e J. G. Bandeira de Melo, autores do livro “Magalhães - Navegando contra o vento i”, lançado em 1994. Ao que tudo indica, a transferência foi forçada por inimizades de “Juca” Pinto. No caminho, ele, a cavalo, com o filho “Juquinha”, de dois anos, foi surpreendido por um tiro no ombro, sem maiores consequências. Talvez o atirador, querendo poupar o menino, tenha evitado uma mira certeira e fatal. Assim, o menino Magalhães Pinto aparentemente salvou a vida do pai.
Estabelecida em Formiga, a família cresceu com o nascimento de Waldomiro Magalhães Pinto, que viria a ser sócio de seu irmão no Banco Nacional. Em seguida, a família morou em Arcos, onde nasceu outro irmão. Todos viveram ali em um casarão com 19 quartos. Aluno da própria mãe, o menino “Juquinha” herdou dela a religiosidade, tornando-se mesmo coroinha na igreja. Em Arcos o coronel “Juca” Pinto era comerciante, construtor e correspondente do Banco Hipotecário de Formiga. Em uma sala do casarão, “Juquinha” ajudava o pai, aprendendo noções sobre serviços bancários.
Vocação empresarial
Aos 13 anos, Magalhães Pinto foi estudar em Juiz de Fora, onde se matriculou na Academia de Comércio, fundada em 1891, a primeira escola de comércio da América do Sul. Estudando durante o dia, ele se formou em 14 de novembro de 1923. No início de 1925 fez matrícula no curso superior da escola, mas depois aparentemente desistiu. É que também havia cursado o Instituto Comercial Mineiro, onde se tornou bacharel em Ciências Comerciais em 1925. Em Belo Horizonte, o Banco Hipotecário e Agrícola abriu concurso para escriturário e ele se inscreveu em 30 de março de 1926, alterando a data de nascimento para parecer maior de idade. Foi aprovado e começou a trabalhar, aos 17 anos, após breve estada na matriz, na agência do banco em Juiz de Fora.

Em 1928, ele trabalhava como gerente da agência em Lima Duarte, a aproximadamente 50 quilômetros de Juiz de Fora, quando, de acordo com Roberto Drummond e Bandeira de Melo, conheceu a sua futura esposa, Berenice Catão, uma jovem de família protestante, que dava aula de ginástica em frente ao seu local de trabalho. Era filha de Alfredo Carneiro Viriato Catão, senador estadual na Primeira República.
Inteligente, operoso e criativo, Magalhães Pinto mereceu elogios da chefia, que o quis promover a contador, só impedindo-o a idade. Aos 19 anos foi indicado pelo francês Lucien Pery para ser procurador, o que depois ocorreu, segundo Hélio Adami Carvalho, autor de “Magalhães Pinto - a trajetória de um homem i”, de 1975. Aos 21 anos, ainda de acordo com Carvalho, foi convidado a assumir o cargo de diretor do Banco da Lavoura, uma promissora instituição bancária na época, liderada pelo empresário Clemente de Faria. Recusou o convite, por não se sentir maduro para o desempenho dessas funções. Aceitou, porém, o de gerente da matriz de Belo Horizonte, onde permaneceu na função entre 1929 e 1935.
Ele chegou à cidade em fevereiro de 1929, no mesmo ano em que ocorreu a quebra da Bolsa de Nova York. Neste meio tempo fez um trabalho brilhante no Banco da Lavoura e se tornou mais conhecido. Idealizou, por exemplo, a expansão da rede de agências do Banco da Lavoura pelo interior de Minas e estimulou o relacionamento com os clientes. No dia 23 de janeiro de 1932, se casou com Berenice, então com 20 anos. Tiveram seis filhos, sendo os homens católicos e as mulheres protestantes - de forma a atender a religiosidade dos dois troncos familiares, sempre convivendo ecumenicamente.
Carreira empreendedora
Em 1935, aos 26 anos, assegura Carvalho, Magalhães Pinto foi promovido a diretor, na vaga decorrente do falecimento do então presidente, o médico Hugo Furquim Werneck. Desta vez aceitou e, já de acordo com Roberto Drumonnd e Bandeira de Melo, desenvolveu muitas inovações, em uma época em que as pessoas tinham dificuldade em obter crédito. Criou o “teto popular”, que consistia em disponibilizar um crédito pessoal limitado. Outros bancos copiaram a idéia, que ajudou a alavancar as atividades comerciais, industriais e de serviços no Estado. Em Belo Horizonte, iniciou o curso de Direito que concluiria no Rio de Janeiro.

Ainda em 1938, Magalhães Pinto assumiu a diretoria da sucursal do banco na cidade carioca, então a capital do País. Abriu agências em Copacabana, Barra da Tijuca e Madureira. Assimilou e implantou modernos métodos de atendimento bancário. Foi pioneiro na utilização de mão de obra feminina em instituições bancárias. A concorrência seguia seu rastro, ampliando a prestação de serviços e beneficiando o público.
O sucesso do banco, que já não se continha em Minas, trouxe ventos favoráveis para Magalhães Pinto, de ordem profissional e política. Ainda em 1938, muito estimado pelas classes produtoras, foi convidado a canditar-se, como candidato único, à Presidência da Associação Comercial de Minas, tornando-se, aos 30 anos, o mais jovem presidente da entidade, mas continuando atuante no banco. Entretanto, em 1939, o então interventor, Benedito Valadares, vetou a sua reeleição para a Presidência da Associação Comercial, temendo que ele se aproximasse de Getúlio Vargas, de forma a fazer-lhe alguma sombra. O presidente já havia visitado a associação presidida por Magalhães Pinto e este gesto detonara uma crise de ciúmes no interventor. O seu trabalho no Rio, porém, abria novos horizontes. E a Associação Comercial de Minas, mais tarde, se tornaria um local efervescente contra Getúlio.
Na arena política
No Rio de Janeiro, Magalhães Pinto estabeleceu contatos com políticos influentes, como Virgílio de Melo Franco, líder revolucionário de 1930, e Odilon Braga, ministro da Agricultura, de 1934 a 1937, e deputado Constituinte em 1934. A influência deles foi marcante para Magalhães Pinto se opor ao Estado Novo.
Em agosto de 1942, o Brasil declarou guerra à Alemanha e a Itália. Os pracinhas brasileiros combatiam os regimes fascistas na Europa. Por sua vez, os mineiros estavam em alvoroço porque o ano marcava o centenário da Revolução Liberal de 1842, protagonizada por Teófilo Otoni. O Manifesto dos Mineiros começou a ser articulado na capital mineira e se consolidou no Rio de Janeiro. Os seus mentores giravam em torno de Pedro Aleixo, ex-presidente da Câmara dos Deputados, que fora defenestrado do cargo pelo golpe de 1937. Faziam parte do grupo Darcy Bessone, Milton Campos e Abilio Machado, entre outros.

No decorrer de 1943 tornaram-se cada vez mais frequentes os encontros dos oposicionistas mineiros residentes na então capital federal, principalmente em almoços. Confabulavam Magalhães Pinto, Virgílio de Melo Franco, Afonso Arinos, Luis Camilo de Oliveira Neto, Odilon Braga e, muitas vezes, o próprio Pedro Aleixo - um intelectual que oportunamente faria oposição a Magalhães Pinto. O Manifesto dos Mineiros acabou se tornando um marco na luta contra a ditadura de Getúlio. E por ter assinado-o e não ter arrependido, como alguns fizeram, Magalhães Pinto iria garantir uma base firme para entrar no cenário político. Mais ainda, porque as classes produtoras o admiravam. Tanto, que se tornou presidente da recém-criada Federação do Comércio do Estado de Minas Gerais.
Já em 1944 ele se aliou ao seu irmão Waldomiro para criar o Banco Nacional de Minas Gerais. Na época, o Banco do Brasil exigia que a instituição tivesse um capital inicial de pelo menos 50 contos de réis. E a dupla de irmãos conseguiu arrecadar nada menos do que 90 contos, com o seu prestígio e a ajuda de Virgílio de Melo Franco e do coronel Francisco Moreira da Costa, primeiro presidente do banco e o seu maior depositante. Magalhães Pinto tornou-se superintendente da organização, e suas inovações, como o crédito profissional, foram constantes e eficientes. Ainda em 1944, faleceu o seu irmão Waldomiro.
Com o fim da ditadura em 1945 e o retorno do País à democracia, a carreira política de Magalhães Pinto decolou, sem perder nenhuma eleição disputada. Exerceu cinco mandatos parlamentares, como deputado federal eleito em 1945, 1950, 1954, 1958 e 1966. No ano de 1960 surpreendeu mais uma vez, vencendo o candidato do poderoso PSD, Tancredo Neves, na eleição para o Governo de Minas, embora com uma diferença pequena, de cerca de 80 mil votos.
Apesar de ter ajudado a fundar a UDN, Magalhães Pinto nem sempre mereceu o apoio de seus correligionários. O fato é que a UDN agregava a nata da intelectualidade e Magalhães Pinto era dono de banco e um homem eminentemente pragmático. Os bacharéis da UDN muitas vezes se opunham às pretensões do banqueiro que desejava ser influente não só nos negócios, mas também na política. Apesar das restrições, ele conseguiu abrir caminho no partido, tornando-se presidente da UDN mineira em 1958. Para alcançar esta liderança deixou conversas acadêmicas e viajou para o interior de forma a conquistar realisticamente o apoio das bases. Na oportunidade, José Aparecido de Oliveira, um dileto companheiro, o ajudava com a imprensa. No ano seguinte, Magalhães Pinto tornou-se presidente nacional da UDN e almejou o Governo de Minas.
O golpe de 1964
“Política é como nuvem, muda a toda hora” é uma frase famosa de Magalhães Pinto. Mas naqueles dias que antecederam o 31 de março de 1964, o golpe militar, ele desejava ardentemente que a nuvem se alterasse a seu favor. No domingo anterior, ele pediu ao seu chefe do Gabinete Militar, coronel José Guilherme, para ir a Santo Antônio do Monte rezar na igreja matriz e pedir as bênçãos ao movimento. No plano terreno, o governador havia planejado detalhadamente como enfrentar resistências ao golpe contra João Goulart. As montanhas eram consideradas trincheiras naturais. Se o Palácio da Liberdade fosse bombardeado haveria um local secreto para transferir o governador e a sua equipe. E havia até um enigmático “homem da mala preta”, Paulo Campolina, chefe do Departamento Administrativo do Palácio da Liberdade, carregando uma mala cheia de dinheiro, para as despesas imediatas com a revolução. À família, Magalhães Pinto disse que todos deviam estar preparados para a sua morte.

Deflagrado o golpe, Magalhães criou rapidamente duas secretarias sem pasta, uma para Afonso Arinos e outra para Milton Campos. Com experiência em diplomacia, Arinos poderia conter arestas caso fosse preciso adquirir armas no exterior. José Maria Alkimin foi chamado para a Secretaria da Fazenda. O time, pelo seu peso político, tinha status de Ministério. Já os generais Mourão Filho e Carlos Luís Guedes estavam à frente das operações militares.
Navios americanos dariam apoio logístico, sem participar diretamente das operações. O movimento imediatamente mobilizou a seu favor voluntários civis, industriais e empresários. Sem ter disparado um só tiro, as tropas mineiras chegaram ao Rio de Janeiro e se postaram em frente ao Estádio do Maracanã. No dia 1º de abril, os generais Arthur da Costa e Silva, Castelo Branco e Décio Palmeiro Escobar apoiaram o movimento, levando à deposição de João Goulart que, no dia quatro de abril, pediu asilo político ao Uruguai. Logo depois, Leonel Brizola, governador do Rio Grande do Sul, o acompanharia no exílio.
Depois de ocupar a pasta das Relações Exteriores i, em 1970 Magalhães Pinto seria eleito pela ARENA para o Senado Federal, com cerca de 1,8 milhão de votos e, em fevereiro de 1975, tornou-se o seu presidente. Após votar em Tancredo Neves no Colégio Eleitoral em 1985, ele deixou a política, por motivo de doença.
Faleceu no Rio de Janeiro, no dia seis de março de 1996.