
Juscelino Kubitschek de Oliveira, cuja obra-prima, Brasília, surpreende e encanta, ainda hoje, o Brasil e o mundo, nasceu em Diamantina, portal do Vale do Jequitinhonha, em 12 de setembro de 1902. Na Presidência da República (1955/1960), Juscelino ficaria conhecido também pelo seu ousado Plano de Metas, sob o desafio de realizar “cinquenta anos em cinco”. Antes disso, porém, o dinamismo cativante já o havia projetado além das montanhas de Minas. Em Belo Horizonte, onde foi prefeito na primeira da década de 1940, JK virou mito como “prefeito furacão”, sendo o complexo da Pampulha, o mais belo cartão postal da cidade, o seu ícone maior. Já no Governo de Minas, que dirigiu entre 1950 e 1955, ele recebeu o apelido de “governador a jato” por despachar a bordo de um pequeno avião e popularizou a sua administração com o “binômio: energia e transportes”, lema desde a campanha.
Apesar da surpreendente escalada de prefeito a governador e presidente em 15 anos, apenas no último ano do mandato na Prefeitura, em 1945, JK resolveu dedicar-se exclusivamente à carreira política i. Em 1933, quando se tornou titular da Secretaria da Casa Civil do Governo de Minas, e em 1934, quando foi eleito deputado federal, ele só aceitara os desafios após insistentes convites do interventor Benedito Valadares, de quem se tornara amigo no front da Revolução Constitucionalista, em 1932. Contudo, com o Estado Novo e a cassação do mandato parlamentar, em novembro de 1937, Juscelino voltou-se para a Medicina. Mas dois anos depois, o “padrinho” Valadares o resgataria novamente, nomeando-o agora prefeito da capital i. De 1940 e 1945, ele ainda se desdobraria nas funções de prefeito e médico do Hospital Militar e da Santa Casa, até decidir-se, finalmente, pela política.
O sonho da Medicina
No Seminário de Diamantina, onde ingressou em 1914, aos 12 anos, Juscelino começou a acalentar o sonho de formar-se em Medicina, inspirado no exemplo do médico sanitarista Carlos Chagas. Para isso, ele teria de deixar a cidade natal, pois até mesmo os exames preparatórios para o curso superior só podiam ser prestados, naquela época, em Belo Horizonte, Barbacena ou Juiz de Fora, mas a família não tinha de recursos. O seu pai, João César de Oliveira, caixeiro viajante, falecera em 1905, e a mãe, Dona Júlia, professora primária, lutava com dificuldades.

O próprio ingresso no seminário, então única alternativa para os estudos secundários em Diamantina, fora uma façanha de Dona Júlia. Isto porque, para frequentar as aulas, o seminário exigia que o aluno tivesse feito opção pelo sacerdócio, mas Juscelino, apesar de coroinha da Igreja da Luz e do fervor religioso, não tinha a vocação. Recorrendo a pessoas influentes, Dona Júlia conseguira que o reitor Vicente Péronneille o admitisse no seminário. Entretanto, terminados os estudos em 1917, Juscelino teria de permanecer em Diamantina, à espera de uma oportunidade para mudar-se para a capital.
Determinado a prosseguir nos estudos, ele aproveitou a permanência na cidade para aperfeiçoar os conhecimentos de inglês com o professor José Edward Jardim e de francês com Madame Louise; uma francesa que trocara os ares de Paris pelos do velho Arraial do Tijuco. A oportunidade finalmente surgiria em 1919, com a aprovação em um concurso para telegrafista dos Correios e Telégrafos, mas como a nomeação para o cargo não era imediata, Dona Júlia teria de recorrer às suas parcas economias para garantir a mudança do filho.
Em sua segunda viagem de trem a Belo Horizonte, Juscelino desembarcou na capital em dezembro de 1919, logo prestando exames e ingressando no Ginásio Mineiro. Como a maioria dos jovens que vinha estudar na capital, ele morou inicialmente em pensões, mas em 1921, já nomeado telegrafista-auxiliar dos Correios - onde foi funcionário até 1928 -, passou a dividir uma república na rua Guajajaras com os colegas telegrafistas José Maria Alkimin e Odilon Behrens e os primos Divaldo e Olemar Lacerda de Pereira.
Em fevereiro de 1922, finalmente Juscelino concretizaria o sonho de cursar Medicina, ao ingressar na então Universidade de Minas Gerais - UMG, hoje UFMG. Na faculdade, de Odilon, o atleta e político republicano apaixonado, ele se tornou amigo inseparável, bem como de Pedro Nava, o intelectual engajado nas hostes modernistas. Mas ao contrário dos dois amigos, Juscelino pouco se interessava pelos movimentos políticos e culturais. Absorvido pelos plantões noturnos no Código Morse nos Correios e pelas aulas na faculdade durante o dia, ele passou ao largo das manifestações contestadoras da juventude, cujas atividades eram estigmatizadas pela elite conservadora com a crítica de que o movimento modernista mineiro começava nos plantões do “Diário de Minas” para acabar nas mesas boemias do Café Estrela.

No Velho Mundo
O médico Júlio Soares, que se casara com a irmã de Juscelino, Maria da Conceição Kubitschek Soares, abriria as portas para a sua carreira em 1926, ao efetivá-lo como interno da Enfermaria de Clínica Cirúrgica da Santa Casa. Formado em dezembro de 1927, Juscelino manteria com o cunhado consultório por vários anos. Às atividades no consultório e na Santa Casa, em 1928 ele acrescentou também, como professor assistente das cadeiras de Clínica Cirúrgica e Física Médica, as aulas na Faculdade de Medicina. Naquele ano, ele seria nomeado ainda médico da Caixa Beneficente da Imprensa Oficial.
1930 seria um outro marco na carreira médica de Juscelino. A bordo do navio Formose, ele partiu para a França, onde em maio iniciou curso de especialização para cirurgiões, ministrado pelo professor da Escola de Medicina de Paris, o célebre urologista Maurice Chevassu. Na capital francesa, ele teve também um período de treinamento no Hospital Cochin, seguindo depois para Berlim, capital da Alemanha, onde fez estágio no Hospital Charilé.
Concluídas as especializações, Juscelino seguiu em um tour pelo Velho Mundo e visitou a Inglaterra, a Itália, a Grécia e o Oriente Médio. No Egito, a grandiosidade das pirâmides e, sobretudo, a capital abandonada de Amarna, construída pelo faraó Aquenaton em homenagem ao Deus único Aton - a primeira experiência monoteísta da antiguidade, em 1.350 a.C. - o impressionaria profundamente. Já em Praga, onde fora conhecer as origens da família Kubitschek i, Juscelino receberia as primeiras notícias da Revolução de 1930. De volta a Paris, ele comemorou no Café Brésil, ao lado de Cândido Portinari e de amigos brasileiros, a vitória da aliança que pôs fim à República Velha e decidiu retornar ao Brasil, embarcando no navio Almirante Alexandrino.
Dois anos depois, já casado com Sarah Lemos Kubitschek, o jovem médico de 32 anos estaria no front da Revolução Constitucionalista, na condição de capitão-médico do Batalhão-Escola da Força Pública de Minas Gerais, nomeado pelo presidente Olegário Maciel em 1931.

Batismo eleitoral
Embora secretário da Casa Civil do governo de Benedito Valadares em 1934, elegendo-se, no ano seguinte, deputado federal pelo Partido Progressista - PP, Juscelino apenas disputou a sua primeira batalha política em 1936, nas eleições para a Câmara dos Vereadores de Diamantina. Naquela época, a escolha do prefeito era de competência do legislativo municipal e, nas eleições, ele teria a chance de disputar a chefia política de sua cidade natal, como aconselhara o amigo Valadares.
No primeiro volume do livro “Meu Caminho para Brasília”, Juscelino registrou que no batismo eleitoral de 1936 a primeira dificuldade que teve de superar foi a timidez, sobretudo o temor de falar em público. A limitação, entretanto, logo seria superada e durante a campanha ele surpreendeu os adversários com um novo estilo de fazer política: o corpo a corpo com os eleitores, de casa em casa, tanto na cidade quanto em seus distritos, que visitou quase sempre a cavalo.
Abertas as urnas, Juscelino e seus correligionários do PP conquistaram nada menos do que 11 das 15 vagas na Câmara dos Vereadores. E o amigo Joubert Guerra, que em 1940 seria o seu chefe de gabinete em Belo Horizonte, foi indicado prefeito. Com a conquista da chefia política de Diamantina, ele criava, assim, as suas primeiras bases eleitorais, mas os horizontes seriam turvados no final do ano seguinte pelo golpe do Estado Novo. Fechado o Congresso Nacional, o agora ex-deputado Juscelino retornou a Belo Horizonte, decidido a dedicar-se à Medicina.
Apesar de absorvido pela carreira médica, ele continuou prestando apoio ao prefeito Joubert Guerra, sobretudo para obter recursos para a cidade junto a Benedito Valadares, de quem partilhava da intimidade em serões no Palácio da Liberdade. Resultado de seus esforços neste período, o centro histórico de Diamantina seria reconhecido, em 1938, como patrimônio nacional; cuja preservação permitiria à cidade conquistar, 61 anos depois, o título da UNESCO de Patrimônio Cultural da Humanidade.
Em BH, o ensaio modernista
Nomeado por Valadares prefeito da capital em 15 de abril de 1940, Juscelino iniciou a administração sob o desafio de concluir as obras da avenida do Contorno que se arrastavam desde a fundação da cidade. De Araxá, onde se encontrava, o interventor telegrafou ao novo prefeito, informando que pretendia inaugurar a avenida em maio, em uma visita de Getúlio Vargas. Juscelino não só concluiu a obra a tempo da inauguração, como transformou a cidade em um canteiro de obras, ao iniciar a substituição dos paralelepípedos da avenida Afonso Pena por asfalto e desencadear um programa de obras viárias, com o prolongamento das avenidas Amazonas e Pedro II e a construção das avenidas radiais Antônio Carlos, Francisco Sá, Silviano Brandão e Teresa Cristina.

Além do programa viário i, Juscelino iniciou em 1941 a canalização do rio Arrudas que, em 1945, chegaria a 75% dos córregos, a 80% dos esgotos fluviais e a 75% dos esgotos sanitários de Belo Horizonte. A criação de novos bairros, como o Sion e a Cidade Jardim, e a ampliação de outros, como Lourdes, dariam também novos contornos à capital projetada pelo engenheiro Aarão Reis no último quartel do século XIX.
Em outras frentes, os restaurantes populares i criados por Juscelino, então já conhecido como prefeito furacão, seriam também exemplos de sucesso, bem como, na área de saúde, a criação de um hospital municipal e de postos médicos nos bairros da cidade. E é ainda dos tempos da sua administração o tombamento e a restauração da sede da Fazenda Velha, transformada depois, em maio de 1941, no Museu Histórico Abílio Barreto - único remanescente preservado dos tempos em que Belo Horizonte era o arraial de Curral D`El Rey.
Contudo, a inauguração da Pampulha foi o grande marco de sua administração. No dia 16 de maio de 1943, pilotando uma lancha e acompanhado de Getúlio Vargas, ele inaugurou o complexo, com a Igreja de São Francisco de Assis, o Iate Tênis Clube, a casa de baile e o cassino, às margens da lagoa. Um time de peso, com o arquiteto Oscar Niemeyer, o paisagista Burle Max, o pintor Cândido Portinari e o escultor Alfredo Ceschiatti, participara do revolucionário projeto, mas a festa não foi completa: o bispo Dom Cabral não permitiu a abertura do templo, alegando que uma casa de Deus não poderia integrar um complexo ao lado de um cassino e de uma casa noturna i.

Com a renúncia de Getúlio, em 29 de outubro de 1945, Valadares deixaria o Governo de Minas e Juscelino a Prefeitura, melancolicamente. De volta do Rio de Janeiro, para onde viajara em companhia do interventor, ele foi informado que um novo prefeito, João Gusmán Júnior, já havia assumido o cargo na manhã do dia 30, dispensando o rito da transferência do cargo. No entanto, pouco mais de um mês depois e já consagrado como deputado federal mais votado para a Constituinte em Belo Horizonte, ele conseguiu indicar um de seus colaboradores, Pedro Laborne Tavares, para continuar o seu trabalho na capital i.
Energia e transportes
Embora o PSD, do qual Juscelino tornara-se secretário-geral na fundação do partido em Minas, tenha se consagrado nas urnas, ele acabaria dividido nas eleições para o Governo de Minas em 1947. A ala liberal do PSD, que lançara a candidatura do deputado Carlos Coimbra da Luz, acabou apoiando o candidato da UDN, Milton Campos, que venceu. Juscelino apoiara o candidato oficial, José Francisco Bias Fortes, mas teria um importante papel conciliador para unificar o partido para as eleições em 1950. Em nível nacional, ele não conseguiria evitar as cisões que levaram à derrota do candidato do PSD, o mineiro Cristiano Machado i, para o do PTB, Getúlio Vargas. Em Minas, porém, ele conseguiu costurar a unidade interna i para enfrentar, com facilidade, o seu concunhado Gabriel Passos (UDN) nas eleições para o governo.
A partir da homologação de sua candidatura em julho de 1950, Juscelino realizou uma das mais agressivas campanhas da história política de Minas. A primeira novidade estava no slogan, o “binômio: energia e transportes”, burilado em um encontro político em Diamantina. Outra novidade era o discurso direto, de fácil assimilação pelos eleitores, ao contrário da pregação doutrinária, usual até então. Entretanto, a grande diferença estava no estilo de campanha. Até três de outubro, dia das eleições, JK visitou 168 municípios mineiros em 56 dias, proferindo 207 discursos nos comícios do PSD e ouvindo outros mil.

JK derrotou Gabriel Passos com uma diferença de 170.578 votos e, após a posse, se concentrou na realização do programa rodoviário e de energia. Dos dois mil quilômetros de estradas anunciados durante a campanha eleitoral, em 1955, quando deixou o cargo para disputar a Presidência da República, JK havia concluído mais de três mil - na verdade, 16 grandes estradas que passaram a ligar a capital às principais regiões do Estado. A execução do programa, contudo, sofreu forte oposição da UDN na Assembléia Legislativa.
Como o Estado não dispunha de recursos próprios, JK foi buscar na França i um empréstimo de 20 milhões de dólares para complementar os 25 milhões já disponibilizados pelo governo federal. Contrários ao empréstimo, os udenistas obstruíram as votações na Assembléia e apenas após intensas negociações a resistência seria superada. Assim, em julho de 1951, o governador assinou o contrato com um consórcio de construtoras que permitiu a execução do programa rodoviário.
A questão energética, o outro ícone do binômio, JK priorizou logo após a posse, em janeiro de 1951, iniciando a construção das usinas de Itutinga, para o abastecimento das regiões Sul e Oeste, e da barragem de Cajuru, para ampliar a oferta para Belo Horizonte. Além dessas, o governo daria a partida também na construção das usinas de Salto Grande, no rio Santo Antônio; do Paredão, no Alto Paranaíba; e do rio Pandeiros - esta destinada ao abastecimento do Norte de Minas.
Em 1952, a criação da Cemig, sob a Presidência de Lucas Lopes, representaria, por fim, o passo decisivo para a concretização do programa energético. Embora detentor de 30% do potencial hidroelétrico brasileiro, Minas consumia, então, pouco mais de um quarto dos cem quilowatts per capita consumidos no País. Com base neste quadro, fixou-se a meta de produção de 600 mil quilowatts até o fim do Governo JK; o que viria a ocorrer. E para concretizar o objetivo, o governo teria de se valer, mais uma vez, de empréstimos de órgão federais e internacionais, bem como de aportes de empresas interessadas na industrialização do Estado, entre as quais a Belgo Mineira, atual Arcelor Mittal Aços Longos, e a Mineração Morro Velho, incorporada pela Anglo Gold Ashanti.
Em agosto de 1954, a inauguração da siderúrgica Mannesmann - hoje V&M Vallourec & Mannesmann Tubes -, na Cidade Industrial, seria marco do novo ciclo de desenvolvimento econômico do Estado. Por ironia do destino, na grande festa de inauguração, o presidente Getúlio Vargas faria a sua última aparição pública, antes do suicídio no dia 24 daquele mês.