
Benedito Valadares Ribeiro foi, para a política de Minas, como uma árvore frondosa que deu muitos frutos. Indicado interventor federal, ele tornou-se depois governador e foi o que permaneceu mais tempo no poder, sempre com o apoio de Getúlio Vargas. Foram quase 12 anos, entre 15 de dezembro de 1933 e quatro de novembro de 1945, quando o Estado Novo expirava.
Apesar de atuar sob um regime autoritário, Valadares contribuiu para forjar ícones da modernidade mineira - como a Pampulha e o Minas Tênis Clube, em Belo Horizonte, e o Grande Hotel de Araxá. Iniciativas inovadoras, considerando que, em 1940, 75% dos habitantes de Minas ainda viviam no meio rural.
Sagaz e carismático, ainda hoje ele é lembrado por seus ditos e casos pitorescos. Reza a lenda que certa vez, ao ser indagado sobre um assunto relevante, respondeu com seriedade: “Eu não sou contra, nem a favor, muito pelo contrário!” E aconselhava: “Só realize reunião quando tiver decidido tudo antes. Reunião é feita para aprovar”. De sua lavra são as frases: “A inimigo não se pede nada, nem demissão” e “estou rouco de tanto ouvir”.
Assim, ajudou a criar uma imagem pessoal - e a do político tradicional mineiro - que transita entre a ingenuidade e a esperteza. Entre os méritos dele também está o fato de ter apoiado jovens políticos promissores, como o futuro presidente Juscelino Kubitschek, convidando-o, em 1933, para a chefia da Casa Civil e, em 1940, para o cargo de prefeito de Belo Horizonte.
A grande arrancada
A estrela política de Valadares sempre brilhou em momentos inesperados. Foi o que aconteceu em 1933, após a sua eleição para deputado federal, em último lugar i. Ele mudou-se para o Rio de Janeiro com a família e solicitou uma audiência a Getúlio Vargas, então presidente do Governo Provisório, para discutir o cenário político mineiro. Estava traumatizado pela perda de seu padrinho político, o presidente Olegário Maciel, morto no Palácio da Liberdade, aos 77 anos, no dia cinco de setembro daquele ano.

O grande trunfo de Valadares era o de ter participado dos acontecimentos da Revolução Constitucionalista de 1932, no front da batalha. Ele havia incentivado o governo mineiro a confiar em um coronel, Christóvão Barcelos, que planejava combater com as suas tropas as forças paulistas na Serra da Mantiqueira, na fronteira entre os dois estados. Nesta ocasião, era prefeito de Pará de Minas e estava casualmente em um hotel em Belo Horizonte, onde, no saguão, se encontravam os militares que planejavam a ação. Valadares se dispôs a ir ao Palácio da Liberdade discutir com Olegário Maciel e o sensibilizou. Em seguida, ele viajou em companhia dos líderes militares de trem para o front, onde foi nomeado por Barcelos delegado de Polícia, encarregado de reprimir eventuais abusos da tropa. Mais tarde, o coronel, com os louros da vitória, seria promovido a general e o recomendaria a Getúlio.
Na Mantiqueira, Valadares conheceu o futuro general Eurico Gaspar Dutra - a quem em 1946 apoiou para a Presidência -; tão intrépido e audacioso que os seus camaradas temiam que ele morresse a qualquer momento, atingido por tiros de metralhadora. No front, com um revolver 45 na cintura, o delegado também se tornou amigo do jovem médico Juscelino Kubitschek, outro futuro presidente da República.
A audiência com Getúlio
A reunião que Valadares solicitara a Getúlio estava relacionada à sucessão em Minas. Afinal, com a morte do presidente Olegário Maciel, o posto fora assumido interinamente pelo secretario Gustavo Capanema, por sinal primo do antigo presidente. Capanema tinha esperança de ser efetivado no cargo de interventor, bem como outro prestigiado político mineiro, Virgílio de Melo Franco.
Sem querer desagradar os dois lados, Getúlio pediu, na audiência, que Valadares - então com 40 anos - discorresse sobre outros políticos da bancada de deputados mineiros. Depois, solicitou que ele falasse sobre a sua própria pessoa. E, então, ocorreu o seguinte diálogo, conforme Benedito reproduz em seu livro de memórias “Tempos idos e vividos”, publicado em 1966:
“Presidente, a meu respeito pouco tenho que dizer. Sou bacharel em Direito pela Universidade do Brasil. Apenas diplomado, fui advogar na Zona Oeste do Estado, fixando residência em minha terra natal, Pará de Minas. Seguindo a vocação de minha família, que é uma das maiores do Estado e deu grandes homens públicos, no Império e na República (sou sobrinho-neto do Conselheiro Martinho Campos), ingressei na política. Presidente do Diretório do Partido Progressista, que combatia a situação dominante, chefiada por advogado e grande industrial, fui eleito vereador. Meu partido deu vitória ao seu nome para Presidente da República. Participei da revolução de 1930, sendo o único em Minas que tomou a Prefeitura sem ouvir o governo. Mantido no cargo pelo presidente Olegário Maciel, fui, por sua indicação, incluído na chapa do partido para deputado federal. Pela pergunta, parece que o senhor está pensando em meu nome para interventor; não faça isto; nesta hora o senhor não deve nomear um político obscuro para este alto cargo.
- Não, preciso é de um moço inteligente e leal. O senhor vai ser meu interventor, está convidado. Agora vamos guardar reserva sobre o assunto porque vai dar barulho na política mineira. O senhor demorou muito comigo; naturalmente, os jornalistas vão lhe perguntar o que houve. Vamos combinar uma resposta.
- Não tenho motivo nenhum a apresentar; só se disser que vim pedir ao senhor a oficialização de um ginásio em minha terra.
- É... Diga isto.”
Mais tarde, Getúlio pediria ao ex-presidente mineiro Antônio Carlos que, na lista dos candidatos ao cargo de interventor, fosse incluído também o de Valadares. E nas ruas, enquanto a situação parecia indefinida, o povo consagraria a expressão: “Será o Benedito?”
Primeiros passos
Benedito Valadares veio ao mundo no dia quatro de dezembro de 1892. Segundo algumas fontes, nasceu em Mateus Leme, distrito de Pará, atualmente município de Pará de Minas. Mas a pequena cidade de Florestal, na região metalúrgica mineira, a 70 quilômetros de Belo Horizonte, alega que pesquisas recentes identificaram como o local exato do nascimento a bicentenária Fazenda Machadão.
Os pais dele eram Domingos Justino Ribeiro e Antônia Benedita Valadares Ribeiro. Em termos genealógicos, sua família estava relacionada à matriarca Dona Joaquina do Pompéu (1750?-1824), cujos descendentes - entre eles o conselheiro Martinho Campos - estiveram presentes na direção da Província de Minas no século XIX.
Os estudos secundários de Benedito foram realizados em Belo Horizonte, onde ele também se formou em Odontologia, em 1914; porém nunca exerceu a profissão. Decidiu fazer outro curso e, em 1920, formou-se em Direito no Rio. Advogou em sua terra natal, onde logo conquistou a confiança de seus conterrâneos. Em 1922, no dia do seu aniversário, ele se casou com Odete Maldonado Pinto Valadares Ribeiro, com quem teve duas filhas, Helena e Lúcia. Embora nascida no Rio, Odete Valadares provinha de tradicional família de Muriaé, na Zona da Mata mineira.
Valadares tornou-se vereador e, mais tarde, foi nomeado prefeito de Pará de Minas pelo presidente Olegário Maciel. Em 1932, quando estourou a revolução, se encontrava naquele fatídico hotel em Belo Horizonte que mudaria a sua trajetória política.
Além de suas memórias, Valadares escreveu os romances “Esperidião” (1951) e “A lua caiu” (1962), e o livro “Na Esteira dos Tempos” (1966), entre outros. Apesar de sua boa veia literária, faz parte de seu folclore político certo discurso em Araxá, redigido por assessores e lido com voz embargada para a multidão:
“- Minas, celeiro do Brasil, cuíca do mundo!
- Não é cuíca - alertou um secretário - é quiçá”.
Ele desconhecia este vocábulo.
Os anos de governo
Segundo Benedito conta em “Tempos Idos e Vividos”, quando assumiu o governo, no final de 1933, a situação financeira e administrativa do Estado era calamitosa, após ter sido protagonista de duas revoluções recentes. Ele relatou:
“Sem contabilidade regular, sem estatística, sem crédito, pois o déficit era maior que o total da receita... Desordem absoluta no recebimento e na aplicação das rendas públicas. A oriunda do café diminuíra devido à desvalorização do produto e à restrição da exportação, e ainda por terem sido transferidas determinadas taxas e impostos para uma organização que se denominava Instituto Mineiro do Café, com sede no Rio de Janeiro.”
A Rede Mineira de Viação, arrendada, era também deficitária. Os funcionários, em número excessivo, eram mal pagos. A única coisa que parecia funcionar como antigamente era o ensino normal e primário, com a colaboração das professoras sob a orientação da educadora Helena Antipoff. O novo interventor proibiu então novas contratações e fechou o Instituto Mineiro do Café, incorporando o seu ativo ao patrimônio do Estado. Também levantou crédito para unificar as dívidas estaduais, com um empréstimo de consolidação, resgatável em quarenta anos, com a emissão de apólices de 5% e sorteio de prêmios. Desapropriou o Banco Hipotecário. O plano, que contou com o apoio dos maiores bancos do País, colocou de novo o Estado no caminho do progresso. “E quando deixei o governo, em 1945, Minas havia entrado em regime de superávit, conforme demonstram os balanços de 1942 a 1944”, recordou Valadares.

Instalada a Assembléia Constituinte em 1934, realizou-se a sessão para escolha do governador do Estado. Ele, acompanhando a apuração pelo radio, foi confirmado no cargo, merecendo o apoio unânime dos deputados do Partido Progressista. Em seguida organizou o seu governo “com a preocupação de servir ao Estado, mas também de atender às diversas correntes políticas conciliadas em torno de meu nome”. Assim, nomeou para a secretaria da Educação o professor José Bonifácio Olinda de Andrada, filho do presidente Antônio Carlos, e para a pasta do Interior Gabriel Passos, de forma a agradar à ala política contrariada com sua nomeação para interventor.
Em Belo Horizonte, o prefeito Otacílio Negrão de Lima queria construir a sede da Prefeitura e o teatro. Benedito achava importante ele cuidar “da rede de esgotos, canalizar os córregos, asfaltar a cidade e melhorar o seu serviço de água”. O jovem engenheiro retrucou que este tipo de obra não “aparecia”. Benedito devolveu: “Pouco importa, nosso dever é trabalhar para o povo, sem nos preocuparmos com o aplauso”. Mas o engenheiro mostrou-se muito dinâmico no cargo. Deixou quase concluída a avenida do Contorno e, por sugestão de Benedito, edificou a Praça do Minas Tênis Clube. Também concluiu a sede da prefeitura, como planejava.
Na Secretaria de Agricultura, Israel Pinheiro ajudaria a modernizar os métodos de cultivo, rasgando a “terra com as máquinas que já começavam a ser fabricadas em Minas”.
No Estado Novo
Ao preparar o golpe de 1937, que inaugurou o ciclo autoritário do Estado Novo, Getúlio Vargas incluiu em seu projeto de Constituição uma sugestão de Valadares, que foi a de que os prefeitos seriam de livre nomeação dos governadores. Instalada a ditadura, ele foi confirmado por Getúlio e deixou quase intacta a sua equipe de colaboradores, ajudando, inclusive, alguns políticos que perderam cargos com o fechamento do Congresso Nacional.

O governador determinou a construção de três mil e quinhentos quilômetros de estradas de rodagem, incluindo trezentas pontes de concreto transpondo quase todos os principais rios mineiros. Rodovias federais também foram iniciadas, como a Rio/Bahia e a BR-31, entre a capital e Uberaba. A circulação entre Angra dos Reis, no litoral, e Goiás, passando por Minas, tornou-se possível e a navegação do rio São Francisco também foi estimulada.
Ainda na área de transportes, Valadares estimulou a que a companhia de aviação Panair do Brasil estabelecesse linhas comerciais ligando Belo Horizonte às estâncias hidrominerais mineiras e ao Rio de Janeiro, a São Paulo, a Goiás e ao Norte do País. Aeroportos e campos de pousos foram construídos em todas as regiões mineiras.
Com o seu apoio, o extraordinário conjunto arquitetônico da Pampulha seria construído pelo prefeito Juscelino Kubitschek na primeira metade da década de 1940. Valadares viabilizou ainda a construção do hotel de Ouro Preto e, em Araxá, do Grande Hotel; “um dos mais modernos e confortáveis hotéis da América”. E é também de seu longo período de governo a implantação da Rádio Inconfidência, cujo transmissor era então o mais potente do País.
Na época, Belo Horizonte era uma “cidade de funcionários” e Benedito, desejoso de modificar a fisionomia burocrática, traçou o plano da Cidade Industrial, com a colaboração do secretário Israel Pinheiro. Este projeto, complementado pela criação do Instituto de Tecnologia Industrial, foi consolidado entre os anos de 1938 e 1945, e exigiu o prolongamento da avenida Amazonas por uma extensão de 12 quilômetros até a vizinha Contagem.
Em discurso na Constituinte de 1946, Valadares ressaltou algumas outras realizações, como a criação do Banco Mineiro de Produção, que priorizou o crédito agrícola, e das Companhias de Armazéns Gerais e da Produção de Minas, com função reguladora das safras.
Construíram-se dezenas de edifícios para a educação e a segurança pública - a exemplo da Penitenciaria Agrícola de Neves, inaugurada com discurso de José Maria Alkimin - e foram ampliados e reparados muitos outros. A rede telefônica também foi ampliada no governo de Valadares: em 1934, ela tinha apenas 4,7 mil quilômetros de linhas; já em 1943, abrangia 19,2 mil quilômetros.
Novos desafios
Após a Constituinte de 1946, Valadares licenciou-se do mandato de deputado federal para concorrer à vaga de senador por Minas, mas perdeu para Artur Bernardes Filho e, com isso, deixou a Presidência Nacional do Partido Social Democrático - PSD. De volta à Câmara dos Deputados, ele participou da Comissão de Constituição e Justiça - como presidente - e da Comissão de Legislação Social. Em 1949, esteve no centro da articulação em torno da sucessão do presidente Dutra e trabalhou pela candidatura de Juscelino Kubitschek para o governo de Minas. Reelegeu-se para a Câmara dos Deputados em 1950 e, quatro anos depois, seria o senador mais votado do País, obtendo 761.006 votos.
Nísio Batista de Oliveira
1945/1946
João Tavares Correia Beraldo
1946
Júlio Ferreira de Carvalho
1946
Noraldino Lima
1946
Alcides Lins
1947
Com o suicídio de Getúlio em 1953, Valadares receava apoiar a candidatura presidencial de JK, que encontrava resistências na área militar, mas acabou seguindo a posição majoritária do PSD. Afinal, Kubitschek seria eleito presidente em 1955 e Valadares prosseguiu em suas atividades parlamentares. Em 1956, ele integrou a delegação brasileira à IX Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque, e, no ano seguinte, ocupou a Presidência da Comissão Especial da Vale do Rio Doce, além de integrar a Comissão de Reforma Constitucional. Já em 1960, elegeu-se líder da bancada e dois anos depois voltou às urnas, sendo reeleito para o Senado. Em 1963, atuou para antecipar o plebiscito que decidiria pela volta do Presidencialismo.
Em 1964, o golpe militar receberia o seu apoio imediato. No mesmo ano, tornou-se presidente da Comissão de Relações Exteriores, permanecendo no cargo até 1968. Com a extinção dos partidos políticos em 1965, Valadares filiou-se à Aliança Renovadora Nacional - ARENA, partido de apoio ao regime militar. Em 1970, seu último ano no Senado, ele foi presidente das comissões de Redação, de Ajustes Internacionais, de Legislação sobre Energia Atômica e de Minas e Energia.
Benedito Valadares faleceu no dia dois de março de 1973, aos 81 anos, no Rio de Janeiro.