
Raul Soares de Moura, mineiro da Zona da Mata, nascido em Ubá, em sete de agosto de 1877, era professor de Português e Literatura, estudioso de lingüística, jornalista e advogado. Apesar de tantos interesses e de ter falecido prematuramente, aos 47 anos, encontrou tempo, em uma carreira política fulgurante, para exercer mandatos de vereador, deputado estadual, deputado federal, senador e presidente de Minas. Também foi o primeiro civil a exercer o cargo de ministro da Marinha, a convite do então presidente, o paraibano Epitácio Pessoa.
Em sua trajetória, Raul Soares tornou-se um dos principais articuladores políticos do Estado no cenário nacional. Em 1922, contribuiu decisivamente para a eleição para a Presidência da República de Artur Bernardes - seu “amigo-irmão”, para quem trabalhou como secretário do Interior -, sucedendo-o no Governo de Minas. Eleito para o período 1922/1926, ele não cumpriria todo o mandato. Raul Soares faleceu no início de agosto de 1924, sendo substituído pelo vice, Olegário Maciel.

Um olhar sobre a realidade mineira
Ainda como candidato do PRM, no início de 1922, Raul Soares argumentava que, entre 1910 e 1920, o valor da exportação agrícola, pastoril e de manufaturas de Minas havia crescido 73%, enquanto as vias férreas 62%. E concluía que “a expansão da produção não tem sido maior exatamente por falta de transporte”. Assim, ele identificava a maior prioridade de seu governo: “a estrada - eis o problema angustiante e premente de Minas”.
Em seu discurso de posse, Raul Soares lembrou que Minas era, no centenário da Independência, um dos mais ricos e prósperos estados do Brasil, “com uma população de seis milhões, uma renda superior a 600 mil contos de réis e uma exportação que excede de meio milhão de contos”. À frente do executivo mineiro, ele implantaria o sistema de empenho prévio, que contribuiu para o saneamento das finanças públicas, e criou a Caixa Estadual do Patrimônio Escolar. Comprometido com a questão dos transportes, Raul Soares estimulou o sistema ferroviário e se voltou para a indústria, a agricultura, a energia, a imigração e o mapeamento florestal.
Uma de suas iniciativas de maior repercussão foi o Congresso das Municipalidades Mineiras, uma outra promessa de campanha. No discurso inaugural deste congresso, em Belo Horizonte, no dia três de junho de 1923, Raul Soares ressaltou a importância do pragmatismo na busca de soluções e, ainda, o valor do ensino e das estradas, das terras públicas e da política municipal. O presidente também fez uma “radiografia” da infra-estrutura urbana no Estado, afirmando que das 178 cidades e vilas de Minas, 149 já contavam com abastecimento de água, 140 com iluminação pública, 112 com telefone, 90 com estabelecimentos hospitalares e 40 com “custosas” redes de esgoto.
Uma carreira política fulgurante
O assassinato, em 1910, do irmão Carlos, chefe político na região de Visconde do Rio Branco, na Zona da Mata, seria o ponto de partida da meteórica carreira de Raul Soares. Então professor de Língua Portuguesa em São Paulo, ele se transferiu para o município para dar continuidade ao legado político do irmão. Na cidade, Raul Soares advogava e mantinha o jornal “O Mineiro”, mas foi em sua cidade natal, muito próxima dali, Ubá, que ele, entre 1910 e 1911, tornou-se vereador e presidente da Câmara Municipal; ou seja, prefeito da cidade.
O passo seguinte foi eleger-se deputado estadual em 1911, quando se transferiu para Belo Horizonte, depositando nas mãos de Levindo Eduardo Coelho, pai do futuro vice-governador Levindo Ozanam Coelho, o comando político regional. A amizade entre Raul Soares e Levindo Coelho vinha dos tempos de estudos de Humanidades em Ouro Preto, onde este lecionava inglês para ele, Artur Bernardes e Melo Viana, entre outros políticos que brilhariam na política mineira.

Em agosto de 1914, Raul Soares renunciou ao legislativo para assumir a Secretaria da Agricultura, Indústria, Terras, Viação e Obras, convidado pelo récem-eleito presidente Delfim Moreira. Ficaria à frente da pasta até 1917, quando articulou a indicação de Artur Bernardes candidato à Presidência de Minas, surpreendendo as lideranças maiores do PRM. Nas eleições em 1918, Bernardes conquistaria o Governo de Minas e Raul Soares o mandato de deputado federal, ao qual, entretanto, logo renunciou para assumir a poderosa Secretaria de Estado do Interior.
A missão em Minas seria interrompida em 1919, quando o presidente Epitácio Pessoa o convidou para o Ministério da Marinha - época em que construiu uma fábrica para a produção de pólvora e renovou os meios aeronavais (em 2007, seria empossado ministro da Marinha um sobrinho-neto de Raul Soares, o almirante-de-esquadra Júlio Soares de Moura Neto). Mas a “dança das cadeiras” não parou e, em 1921, exonerando-se do Ministério, elegeu-se por Minas para o Senado Federal, mergulhando nas articulações que levariam o “amigo-irmão”, Bernardes, à Presidência do Brasil, e ele à Presidência de Minas.
No Rio de Janeiro, o mandato de Bernardes iniciou-se em 1922 sob forte tensão política, com a deflagração do movimento tenentista. Governando sob estado de sítio, o amigo presidente enfrentava problemas no Rio Grande do Sul e, em 1924, seria a vez de São Paulo ser palco de um movimento armado. O governo reagiu duramente e a cidade foi bombardeada por aviões e canhões do Exército. Mais de 500 pessoas morreram.
Em Minas, Raul Soares empreenderia todos os esforços para ajudar o correligionário, como registrou um de seus biógrafos, Vivaldi Moreira:
“O homem decidido, intrépido, ativo, se movimenta, arregimenta, dá ordens, prevê, a tudo superintende. Expede tropas para a fronteira, cria o 6º Batalhão Provisório”.
Mas o desgaste físico e emocional comprometeu a saúde de Raul Soares e em pouco tempo ele faleceu.
Uma formação humanística
Raul Soares era o caçula dos sete filhos do casal Camilo Soares de Moura e Amélia Peixoto Soares de Moura. Como a maioria dos presidentes de Minas na Primeira República, o seu pai, agricultor, era coronel da Guarda Nacional. A mãe, por sua vez, descendia de família com tradição política. Provavelmente por influência materna, outros três irmãos de Raul Soares também se voltaram para a política: Francisco, Carlos e Camilo.

Quando a proclamação da República se aproximava, Raul Soares - ainda um garoto de 12 anos - foi matriculado no Seminário Menor de Mariana. A matricula ocorreu no dia 1º de outubro de 1889, com o seu nome de batismo, Raul Peixoto Soares. Algum tempo depois, em 1891, prosseguiu os estudos no Ginásio de Barbacena, onde travou amizade com colegas que o acompanharam na vida política, como Augusto Mário Caldeira Brant e Leon Renault. Em 1895, concluiu o ginasial no Colégio Mineiro, em Ouro Preto, e em seguida matriculou-se na Escola Livre de Direito, mas só concluiria o bacharelado na Escola de São Paulo, em 1900, sendo orador da turma. Após retornar a Minas, foi nomeado promotor de Justiça de Santa Luzia de Carangola, atual Carangola, onde também foi delegado interino de Polícia.
Mudou-se de novo para São Paulo em 1903, após ser admitido no Ginásio Estadual de Campinas, como professor de Língua Portuguesa. Nessa mesma época, tornou-se colunista do jornal “O Comércio de São Paulo”, dirigido por Afonso Arinos. No ano seguinte, aos 27 anos, dedicou-se ainda a estudar Filologia e Literatura, fez estudos e apontamentos sobre “Os Lusíadas”, de Camões, e redigiu “Philologia Românica no Brasil”. Em 1909, publicou o estudo crítico “O Poeta Cristal” e em 27 de novembro deste mesmo ano, com a criação da Academia Paulista de Letras, foi convocado fundador, ocupando a cadeira 26.
O historiador Delso Renault, autor do livro “Raul Soares de Moura; o professor, o homem de letras, o estadista”, traça o perfil do biografado:
“É um temperamento reservado, contido, facilmente controlável. Mas é dotado, também, de vontade firme e de determinação necessárias nas horas decisivas (...) Seu porte físico também impressiona. Alto, erecto, desempenado, de passos firmes e largos, dá impressão de distância e frieza. Não é, todavia, homem frio e distante. É isto sim, reservado e contido. A calva avança, no “desprovimento dos cabelos”, como diz seu amigo Sertório de Castro, imprimindo-lhe feição aristocrata”.
Raul Soares foi casado com Alice Reis Soares de Moura, que lhe deu o filho Saulo. Ambos faleceram prematuramente. Raul, então, conheceu e casou-se pela segunda vez com Araci Emília Von Sperling Soares de Moura e tiveram quatro filhas: Maria Flora, Letícia, Ângela e Arminda.
Ele faleceu no dia quatro de agosto de 1924. Hoje, Raul Soares dá nome a uma praça e um hospital em Belo Horizonte e a uma cidade em Minas.

Como as montanhas na paisagem mineira, a vida política de Fernando de Melo Viana transcorreu entre altos e baixos. Foi presidente de Minas Gerais entre 1924 e 1926 e logo em seguida alcançou a Vice-Presidência do País como companheiro de chapa do paulista Washington Luís. À sua frente o esperava a Revolução de 1930, que marcaria o fim da República Velha. Embora a revolução tenha sido costurada com a participação de Minas, Melo Viana estava mal posicionado no tabuleiro político. Quem ganhou a partida foi Antônio Carlos de Andrada, então presidente de Minas e um dos líderes da Aliança Liberal, que reunia a oposição a uma nova candidatura paulista à cadeira presidencial. Iniciativa que contrariava a política do café-com-leite.
Assim, Melo Viana, que havia, inclusive, rompido com a direção do PRM ao ser preterido na sucessão de Antônio Carlos no Governo de Minas, foi obrigado a deixar o País e se exilar por oito anos na Europa. Também conheceu outras provações, tanto políticas quanto pessoais. Em 1928, ele acabara de se casar, quando um bispo saiu, a público, a dizer que a sua amada, Clotilde de Souza Elijalde, era uma senhora que já estivera antes no altar de uma igreja - um verdadeiro escândalo para aqueles tempos.
Já em Montes Claros, quando ele promovia um comício da Concentração Conservadora - o movimento em defesa do candidato paulista, Júlio Prestes, à sucessão presidencial -, os ânimos se exaltaram e ocorreu um tiroteio, no dia seis de fevereiro de 1930, que resultou em mortes e feridos, inclusive o próprio Melo Viana.
Após ser anistiado, trabalhou como advogado em Minas e em Goiás e foi eleito presidente da Ordem dos Advogados do Brasil em duas oportunidades.
A sua estrela política voltou a brilhar decididamente com o fim da Segunda Guerra Mundial. Os pracinhas brasileiros retornavam da Itália. Haviam lutado contra o fascismo, enquanto Getúlio Vargas governava o País sob o Estado Novo, com mão de ferro. Os brasileiros ansiavam pelo retorno à democracia, com uma nova Constituição. Melo Viana aproveitou a brisa favorável e, em 1945, foi eleito senador à Assembléia Nacional Constituinte, agora pelo Partido Social Democrático, o PSD. Logo depois foi eleito presidente da própria Assembléia, obtendo a maioria dos votos junto aos constituintes. Após a promulgação da nova Carta Magna, em setembro de 1946, passou a exercer a Vice-Presidência do Senado.
No legislativo, deu provas de ter um espírito esclarecido. Durante a Assembléia Constituinte de 1946, foi colocada em votação a emenda nº 3.165, de autoria do médico Miguel Couto Filho, que dizia:
“É proibida a entrada no país de imigrantes japoneses de qualquer idade e de qualquer procedência”.
Incrivelmente, a votação ficou empatada em 99 votos contra e 99 votos a favor. Coube a Melo Viana, como presidente da Assembléia, dar o voto de minerva. Se não fosse por seu voto, rejeitando prontamente a emenda, a importante contribuição japonesa ao Brasil estaria comprometida.
A polêmica acompanhou Viana no seu partido. No início de 1947, o PSD mineiro não marchou unido para as eleições estaduais. A maioria da Comissão Executiva propunha o nome de José Francisco Bias Fortes para o governo, mas um grupo liderado por Viana e pelo senador Levindo Eduardo Coelho apoiava Carlos Luz, ministro da Justiça do presidente Eurico Gaspar Dutra. Bias Fortes acabou vencendo a convenção, mas a ala chefiada por Melo Viana formou dissidência e decidiu, junto com o Partido Republicano - PR, liderado pelo ex-presidente de Minas e do Brasil, Artur Bernardes, e o Partido Trabalhista Nacional - PTN, apoiar o udenista i Milton Campos, que acabou eleito para o Governo de Minas. Isso, apesar da grande maioria do partido ter apoiado Bias Fortes.
A trajetória em Minas
Fernando de Melo Viana nasceu na cidade histórica de Sabará, no dia 15 de março de 1878. Era filho do comendador Manuel Fontes Pereira de Mello Viana e de Blandina Augusta de Araújo Viana. Aos oito anos de idade, mudou-se para Esmeraldas, cidade que integra hoje a região metropolitana de Belo Horizonte. Em seguida, aos 12 anos, foi estudar no Colégio Caraça, juntamente com outros grandes nomes da política mineira, como Artur Bernardes e Raul Soares. Aos 16 anos passou a cursar a Faculdade de Direito de Ouro Preto.
Em 1901, um ano depois de formado, foi nomeado promotor da Comarca de Mar de Espanha, na Zona da Mata. Entretanto, ele renunciou no ano seguinte para apenas advogar na cidade. Em 1903, foi eleito deputado estadual, mas não terminou o mandato por motivo de saúde. Posteriormente, foi juiz de Direito das cidades de Pará de Minas, Conceição do Serro, Carangola e Uberaba. O passo seguinte foi deixar Uberaba para ser advogado-geral do Estado, em 1918.
Melo Viana iniciou a carreira política no governo de Raul Soares, ao ser nomeado secretário do Interior. Na pasta investiu em educação, fazendo inovações de repercussão nacional, como a criação de caixas escolares e a assistência médico-dentária escolar. Com a morte prematura do presidente assumiu o seu vice, Olegário Maciel, que presidiu a eleição que elegeria Melo Viana para completar o mandato de Raul Soares.

Como presidente de Minas a partir de dezembro de 1924, Viana priorizou o desenvolvimento rodoviário, a educação e a saúde. No setor de siderurgia combateu grupos internacionais, organizando empresas com a cooperação do capital nacional. Foi responsável pela introdução da disciplina “Gymnastica” nas escolas e inaugurou a sede do Conservatório Mineiro de Música.
Melo Viana deixou o governo mineiro em setembro de 1926 e assumiu a Vice-Presidência da República - cargo que o autorizava, constitucionalmente, a exercer a Presidência do Senado. Em 1929, ele aliou-se à Concentração Conservadora para promover a campanha do candidato do presidente Washington Luís à Presidência da República.
No seu último mandato como senador (1946-1950), ele conseguiu aprovar o projeto de federalização da Universidade de Minas Gerais, atual UFMG. É lembrado ainda por ter sido membro das Comissões de Orçamento e da Junta de Recursos Eleitorais, conferencista e escritor, sendo de sua lavra o trabalho “Nuda Proprietas”, em parceria com Valporê de Castro Caiado.
Fernando de Melo Viana morreu no Rio de Janeiro, em 1º de fevereiro de 1954, pouco antes de completar 76 anos. Em Sabará, ele tem seu nome perpetuado na Praça da Igreja do Rosário.