
Primeiro presidente a tomar posse na nova capital, ainda denominada Cidade de Minas, em sete de setembro de 1898, Francisco Silviano de Almeida Brandão seria também o primeiro mineiro vice-presidente do Brasil, eleito pelo voto direto em 1º de março de 1902. Com o presidente Manuel Ferraz de Campos Salles (1898/1902), ele fora um dos principais articuladores do pacto, denominado Política dos Governadores, pelo qual o presidente da República apoiava os governantes dos Estados que, em troca, garantiam a eleição para o Congresso de parlamentares leais ao governo. Entretanto, Silviano Brandão não chegou a tomar posse na Vice-Presidência e sequer concluiu o seu mandato em Minas, falecendo em 25 de setembro de 1902, aos 54 anos.
Signatário do Manifesto Republicano de 1870, quando concluía, em São Paulo, os estudos preparatórios para a matrícula nos cursos de Direito e Medicina, ele era um republicano histórico. Natural de um distrito de Campanha, Santana de Sapucaí, hoje Silvianópolis, depois de se formar em Medicina no Rio de Janeiro Silviano Brandão retornou para o Sul de Minas em 1876, onde passou a liderar o movimento e fundou clubes republicanos em Pouso Alegre, Ouro Fino, Jacuí e até em São João Nepomuceno, na Zona da Mata. Em 1881, foi eleito deputado geral pelo Partido Liberal, mas o seu apoio às idéias abolicionistas e ao projeto que libertava escravos sexagenários desagradou os chefes políticos da região e, candidato à reeleição em 1884, ele foi derrotado.
Com o crescimento do movimento republicano, em agosto de 1889, na última eleição do Império, Silviano Brandão conquistaria novamente um mandato de deputado geral, mas os eleitos, com a proclamação da República, não chegaram a tomar posse. Engajado na consolidação do novo regime, elegeu-se então senador à Constituinte mineira em 1891, sendo de sua autoria o projeto que denominava como presidentes i os governantes do Estado; cargo que, finalmente, conquistaria sete anos depois pelo voto direto. Em 1892, Silviano ocupou a poderosa Secretaria de Interior e Justiça no governo de Afonso Pena, reelegendo-se para o Senado Estadual em 1895.
Tesouro falido

Em fins de 1898, Silviano Brandão assumiu a Presidência de Minas em um momento em que o País atravessava grave crise. Os primeiros nove anos da jovem República tinham sido marcados por forte instabilidade política, com levantes militares e guerra civil, entre eles a Revolução Federalista no Rio Grande do Sul (1893/1895). No plano econômico, reconhecia o próprio presidente da República, Prudente de Morais, que antecedeu Campos Salles, “o Tesouro estava falido”, a inflação e a crise cambial assumiam proporções desastrosas, em um quadro em que a redução no consumo mundial de café - principal item da pauta de exportações brasileiras - provocara pela primeira vez a queda de preços i.
Em Minas, o novo presidente encontrou também “as finanças públicas em descalabro; (...) a arrecadação não correspondendo à receita orçada; um compromisso de 20 mil contos de réis i da dívida externa vencida e oito mil contos da dívida interna a vencer em 1899; a diminuição progressiva e alarmante da produção”, recordaria Augusto de Lima, ex-presidente do Governo Provisório, em discurso proferido no 30º dia da morte de Silviano Brandão no Clube Floriano Peixoto, em outubro de 1902. A estes problemas, ele acrescentou ainda que o novo presidente encontrara a máquina administrativa “ameaçada de paralisia” e o café sendo exportado “a preço vil”, obrigando-o a adotar a redução das despesas, a supressão de verbas extraordinárias e a extinção de cargos públicos, entre outras medidas.
O “programa de sacrifícios” de Silviano Brandão, que teve a aprovação do Congresso Mineiro, daria os resultados esperados. No último ano do seu mandato, segundo Augusto de Lima, as finanças públicas estavam saneadas, o Estado não tinha mais dívidas flutuantes e os pagamentos estavam em dia. Entretanto, o presidente não teria o mesmo sucesso ao tentar garantir uma base de arrecadação tributária mais estável, então dependente, quase que exclusivamente, do imposto sobre a exportação de café. Em 1899, ele propôs a instituição de um novo tributo, o imposto territorial rural, compensando a medida com a redução para 2%, a partir de 1900, do imposto sobre a exportação de café. Embora beneficiados pela redução, os cafeicultores conseguiram adiar a implantação do imposto territorial para 1901. Mas, apesar disso, pelo menos até o final da década de 1930 o Estado continuaria privado de uma base mais estável de arrecadação tributária i.
No Rio de Janeiro, o presidente Campos Salles conseguiria também equilibrar a economia brasileira. Antes mesmo da posse, em meados de 1898, ele viajou à Inglaterra e obteve dos Rothschild, tradicionais banqueiros dos Brasil, um novo empréstimo de dez milhões de libras esterlinas. O custo, entretanto, seria elevado. Além do pagamento imediato dos juros da dívida externa e de dar como garantia as rendas da Alfândega do Rio de Janeiro, Campos Salles se comprometera a executar um programa de corte dos gastos públicos, de valorização da moeda e de aumento de impostos que, ao final, lhe daria a alcunha de Campos Selos, em razão dos impostos que criou i.

Café-com-leite
Premido pela necessidade de apoio do Congresso às medidas do seu governo, Campos Salles encontraria na Política dos Governadores a saída para a superação da instabilidade política que marcou os primeiros anos da República Velha. Por meio dela, o Executivo pode estabelecer alianças com as oligarquias regionais mais poderosas em cada Estado que, por sua vez, garantiam o apoio dos parlamentares no Congresso e, em troca, se perpetuavam no poder. Na prática, o pacto era legitimado pela Comissão de Verificação dos Poderes i e pelo controle dos votos pelos coronéis i em cada distrito eleitoral.
Com o pacto, Minas Gerais, o Estado mais populoso e de maior representação no Congresso, e São Paulo, já a maior economia do País, conquistariam a liderança na direção da política republicana. A aliança entre os dois estados mais poderosos, que previa a alternância na Presidência da República de políticos mineiros e paulistas, passaria à História como política do café-com-leite, embora Minas e São Paulo nem sempre tenham marchado juntos nas sucessões presidenciais na Primeira República.
No discurso em homenagem a Silviano Brandão e a seu legado político, Augusto de Lima assinalou:
“O resultado dessa política não se fez esperar: o Estado de Minas, até então fraco na política nacional pela divisão de seus representantes, tomou o lugar que lhe competia pela grandeza, pelo número e pelo merecimento. E nunca ele foi mais independente; porque à sua autonomia interna acresceu a hegemonia externa, fazendo-o preponderar no Congresso e nos conselhos do governo da República.”
Família

Primeiro presidente do Sul de Minas, Silviano Brandão nasceu em Silvianópolis - cidade que leva este nome em sua homenagem -, em oito de setembro de 1848, filho de José Claro de Almeida e de Ana Isabel Bueno Brandão Almeida. Seus ancestrais chegaram ao então povoado de Ouro Fino em 1745 e, no Império, já protagonizavam a política liberal na região. Os liberais, chamados de molambos, eram liderados por Francisco Bueno de Paiva, tio e sogro de Silviano Brandão. A partir da década de 1870, ele e o primo e cunhado, Júlio Bueno Brandão, que também seria presidente de Minas, passaram a liderar o clã político da família i.
Ainda estudando Medicina no Rio de Janeiro, Silviano Brandão casou-se com a prima Maria Izabel de Paiva Bueno Brandão. Com o falecimento da esposa, ele se casaria em 1889 com a cunhada, Esther Cândida de Paiva Brandão.

Joaquim Cândido da Costa Sena, vice-presidente de Minas Gerais eleito em 1898, assumiu efetivamente o Governo do Estado em fevereiro de 1902, em razão do afastamento por razões de saúde do então presidente Silviano Brandão. Natural de Conceição do Mato Dentro, onde nasceu em 13 de agosto de 1852, ele estudou no Caraça e foi aluno de uma das primeiras turmas da Escola de Minas de Ouro Preto - EMOP i, formando-se engenheiro de Minas em 1880. Da escola, se tornaria, cinco anos depois, professor interino de Química e Física, passando a catedrático, em 1890. Já em 1900, Costa Sena chegaria à direção da EMOP.
A política republicana o arrebatou nos tempos de estudante e, vitorioso o novo regime, ele foi eleito em 1891 para um primeiro mandato no Senado Estadual. Naquela década, Costa Sena seria eleito também para a 2ª e 3ª legislaturas, acumulando o mandato de senador com o de vice-presidente do Estado a partir de 1898. Dois anos depois, já nomeado diretor da escola, ele renunciou ao Senado, mas permaneceu como vice-presidente até assumir, em 1902, a Presidência de Minas.
Mais do que um político, Costa Sena era, na verdade, um engenheiro profundamente comprometido com a causa da mineração. Em 1891, a Constituição adotou o princípio, similar ao dos Estados Unidos, de que o proprietário de minas era dono tanto do solo quanto do subsolo. No Império, a propriedade das minas era da Nação e a mudança do sistema provocou controvérsias. Ao lado de outros estudiosos, Costa Sena propunha uma legislação mais liberal e, entre outras medidas para incentivar a mineração, ele defendia a redução de impostos sobre os minérios exportados e até a isenção para a importação de máquinas, pois só assim seria possível que os recursos naturais de Minas se tornassem “fonte de prosperidade”. i
Visão de futuro

Na década de 1890, além do ouro da mina dos ingleses de Morro Velho, em Nova Lima, as exportações de minérios do Estado restringiam-se ao manganês. A partir de 1893, as exportações deste minério foram potencializadas por empresas belgas que se instalaram na região de Ouro Preto e Conselheiro Lafaiete, ganhando espaços no mercado internacional pela sua qualidade e, depois, durante a Primeira Guerra Mundial, pelo fato de a Rússia e a Índia, os principais países concorrentes, terem reduzido drasticamente as suas vendas. Em todo este período, Costa Sena desenvolveu intenso trabalho pela redução dos impostos de exportação e dos preços do frete para o transporte do manganês. Assim, em 1901 o imposto de exportação seria reduzido em 50%, bem como o frete cobrado pela Estrada de Ferro Central do Brasil.
Estudioso do minério de ferro de Minas Gerais, Costa Sena destacava a sua alta qualidade e pureza, vaticinando, em 1908:
“As jazidas do Brasil e, em particular, as do Estado de Minas, podem abastecer os mercados do mundo durante dezenas de anos e talvez durante séculos”. i
Costa Sena chegou também a ser proprietário de minas de manganês e desenvolveu intenso trabalho científico e de projeção das potencialidades minerais do Estado. Foi representante do Brasil no Congresso Pan-Americano do Chile, realizado em 1908 - dois anos depois, no Congresso de Geologia de Estocolmo, na Suécia, as enormes reservas de minério de ferro de Minas ganhariam repercussão mundial i. Já em 1911, ele seria comissário-geral do Brasil na Exposição de Turim, permanecendo na Europa por dois anos. Além de numerosos trabalhos científicos, ele publicou “Apontamentos de Mineralogia” e “Apontamentos de Geologia”.
Costa Sena foi casado com Virgínia Wellerson de Sena e faleceu em Belo Horizonte em 20 de junho de 1919.