capítulo iii
República Velha
Crispim Jacques Bias Fortes
Secretaria de Estado de Governo / www.mg.gov.br/portalmg
1894 • 1898
Bias Fortes
7 set 1894 a 7 set 1898
Partido: PRM
Eleição: Diretas
A criação da capital republicana

O sonho da fundação de uma nova capital, distante dos marcos do poder da Coroa Portuguesa, fincados em Vila Rica, integrava já em 1789 a plataforma dos inconfidentes mineiros. Frustrada a conjuração, a transferência da capital entraria em pauta por várias vezes ao longo do século XIX, mas apenas ganhou força após a proclamação da República, em 1889. Desta vez, não se tratava somente da mudança da capital, mas da construção de uma nova cidade, planejada, moderna e industrial - imagem viva do pensamento positivista. Enfim, uma capital-símbolo da era republicana, alicerçando os ideais de modernidade e civilidade das Minas Gerais para o século XX i.

Em 1891, na gestão de Antônio Augusto de Lima, último dos sete presidentes do Governo Provisório Republicano, a construção da nova capital entrou definitivamente na agenda do novo regime, a partir da criação de uma comissão encarregada de identificar, dentre cinco regiões selecionadas (Juiz de Fora, Barbacena, Várzea do Marçal, em São João Del Rei, Paraúna e Curral D’El Rey), a área mais adequada i. O ato de Augusto de Lima provocou imediatas reações i e ele resolveu recuar, deixando que a decisão sobre a mudança fosse tratada no processo de elaboração da primeira Constituição de Minas; o que viria a ocorrer ainda naquele ano.

Os trabalhos tiveram continuidade nos governos de Ernesto Gama e Afonso Pena, sendo que o Congresso Mineiro, reunido em Barbacena no dia 17 de dezembro de 1893, aprovou o local - o arraial de Curral D’El Rey, cujo nome fora mudado para Belo Horizonte - , passando a correr o prazo-limite de quatro anos para a construção da cidade. Em fevereiro de 1894, seis meses antes de deixar o governo, Afonso Pena criou a Comissão Construtora da Nova Capital, sob a chefia do engenheiro paraense Aarão Leal de Carvalho Reis, mas as obras só ganhariam pleno andamento no governo de seu sucessor, Crispim Jacques Bias Fortes, a quem caberia inaugurar a nova capital em 12 de dezembro de 1897, apenas cinco dias antes do fim do prazo legal.

Planta Geral da Cidade de Minas / 1895
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Tradição e mudança

Natural de Livramento, hoje Oliveira Fortes, distrito de Barbacena, onde nasceu em 25 de outubro de 1847, Bias Fortes era filho do capitão da Guarda Nacional, Francisco José de Oliveira Fortes, e de Carlota Benedita de Oliveira Fortes, descendendo de um dos mais tradicionais clãs políticos mineiros desde os tempos da Colônia. Na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, foi colega de turma de seu antecessor, formando-se em Ciências Jurídicas em 1870. De volta a Barbacena, Bias Fortes, que se casou com Adelaide de Araújo Fortes, foi promotor de Justiça e juiz, deixando a carreira judiciária em 1879 para dedicar-se à política. Em 1881, já professando publicamente sua opção republicana, ele conquistou o seu primeiro mandato como deputado na Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais, pelo Partido Liberal, reelegendo-se sucessivamente até o fim de Império.

Praça da Liberdade em 1910
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Antes de eleger-se presidente de Minas, Bias Fortes já havia ocupado a Presidência do Governo Provisório Republicano por quatro vezes, no período 1890/1891, nomeado pelo marechal Deodoro da Fonseca. Nas eleições de sete de março de 1894, ele obteve 44.434 votos, enquanto o senador estadual João Nepomuceno Kubitscheck - tio-avô do futuro governador e presidente da República na década de 1950, Juscelino Kubitscheck - seria eleito vice-presidente com 41.294 i.

Em 18 de agosto de 1894, a pouco menos de um mês de sua posse no governo, Bias Fortes faria a sua primeira visita ao canteiro de obras da nova capital, acompanhando o presidente Afonso Pena. Eles chegaram ao arraial a cavalo, pois a estrada de ferro ainda não estava concluída, e foram recebidos por Aarão Reis. Como não havia hotéis ou hospedarias, ele e Afonso Pena pernoitaram na casa do chefe da comissão construtora, retornando para Ouro Preto na tarde do dia seguinte, após inspeção geral das obras.

Já à frente do governo, Bias Fortes receberia, em março de 1895, a planta da nova cidade. Embora inspirada na capital dos Estados Unidos, Washington, que tem um traçado em xadrez, com as avenidas e ruas cruzadas, em linha reta, a planta elaborada pelo engenheiro paraense tinha um traçado singular e monumental, em diagonal, e com imensas avenidas, tendo a central - a avenida Afonso Pena - 50 metros de largura, em um tempo em que ainda não havia automóveis. Após concluir os projetos arquitetônicos das principais edificações públicas, como os prédios da Praça da Liberdade e o Palácio Presidencial i, projetado com grandiosos motivos art noveau; de 370 casas, avenidas, praças e sistemas de abastecimento de água e de esgotos, Aarão Reis deixou a chefia da comissão construtora em maio, sendo substituído por Francisco de Paula Bicalho i.

Arrancada final

As dúvidas sobre o andamento dos trabalhos, suscitados pela renúncia de Aarão Reis, seriam superadas no dia sete de setembro daquele ano com a inauguração da estrada de ferro ligando Sabará à futura capital. Os materiais de construção, até então precariamente transportados em carroças, carros de boi ou lombo de burros, passariam a ser levados para o canteiro de obras diariamente em 30 vagões, cada um com capacidade equivalente, em média, a 17 carroças. Com a linha férrea, o fluxo de operários e imigrantes, a maioria de italianos, seria intensificado e a primeira capital planejada do País ganharia também o seu periódico, o jornal “Bello Horizonte”, editado pelo padre Francisco Martins Dias.

Entretanto, na velha capital mineira, Ouro Preto, o clima não era de euforia. Apesar de receberem lotes de terra para compensar a desvalorização de suas propriedades, poucos moradores mostravam interesse em mudar para a nova capital. “Antimudancista” ferrenho, o jornalista e historiador Diogo de Vasconcelos dizia que todos que nasciam em Curral D’El Rey eram papudos e que a região era um formigueiro, devido à quantidade de formigas. Assim, Papudópolis ou Formigópolis eram os termos mais correntes usados pela imprensa contrária à mudança, como os periódicos “Jornal de Minas”, editado em Ouro Preto, e “Pharol”, de Juiz de Fora - cidade que também pleiteara ser a capital.

Apesar disso, os trabalhos continuavam a todo vapor. Ainda em 1985, serviços de água e esgoto e a força elétrica - símbolos maiores da modernidade -, já estariam disponíveis e, no ano seguinte, seria a vez da inauguração do telégrafo e do primeiro hotel, o Monte Verde. No início de 1897, na corrida contra o tempo para a inauguração, já estavam quase prontos 38 prédios públicos, a Praça da Estação, o quartel da polícia, o Cemitério do Bonfim, o Grande Hotel, e 500 casas, das quais 200 estavam reservadas para funcionários públicos que se transferissem de Ouro Preto. Em julho, a boemia ganharia também o seu ponto de encontro no Café Mineiro, na Rua Guajajaras; casa noturna que se equiparava em glamour às melhores do Rio de Janeiro e de São Paulo.

Portanto, os marcos que asseguravam a condição de capital de Minas e símbolo dos novos tempos já estavam concluídos, a despeito de a nova cidade ser ainda um imenso canteiro de obras e já se defrontar com as consequências do crescimento urbano desordenado, visíveis nas cafuas e casas de trabalhadores pobres que mais tarde seriam expulsos. Assim, no anoitecer de 11 de dezembro de 1897, a cidade ganhou cores e formas com a inauguração da iluminação elétrica, que simbolizou o seu nascimento. No alvorecer do dia 12, a população foi acordada com uma salva de 21 tiros de canhão e se reuniu para receber na Praça da Estação o presidente Bias Fortes e comitiva, a bordo do trem, cuja locomotiva, puxando sete vagões, fora batizada com o nome “Belo Horizonte”.

À tarde, na Praça da Liberdade, Bias Fortes assinou o decreto n º 1.085, que declarava instalada a nova capital, com o nome Cidade de Minas, e para ela transferia o Governo do Estado. Ainda naquele dia, uma nota, publicada na edição especial do jornal “Capital”, sintetizava o que a nova cidade simbolizava:

“Belo Horizonte surge no colo do quase deslumbramento de magia. É a chama que, enfim, se nos oferece. É a capital digna de Minas Republicana, escrevendo no seu escudo a palavra progredir”. i

De volta a Barbacena

Além da construção da Cidade de Minas, que apenas em 1901 receberia o nome definitivo, Belo Horizonte, a administração de Bias Fortes priorizou a agricultura, por meio do incentivo à imigração de trabalhadores e da expansão das atividades para áreas ainda não exploradas. Com este objetivo, ele buscou ainda ampliar a ligação da malha ferroviária, dos grandes centros consumidores às áreas de agricultura, e procedeu a reformas no ensino agrícola e veterinário.

Após deixar a Presidência de Minas em 1898, Bias Fortes retornou ao Senado Estadual, reelegendo-se sucessivamente para as legislaturas seguintes. De 1907 até o seu falecimento, no dia 14 de maio de 1917, ele acumulou o mandato de senador com o cargo de agente executivo municipal, hoje prefeito, de Barbacena, onde, ao longo do século XX e até hoje, seus descendentes e os do patriarca da Independência, José Bonifácio de Andrada e Silva, travam ferrenha disputa pelo controle político do município. Na segunda metade da década de 1950, um de seus filhos, José Francisco Bias Fortes, voltaria a ocupar o Palácio da Liberdade.

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