

A colonização do espaço onde hoje está Minas Gerais é uma conseqüência direta da descoberta, no final do século XVII, de jazidas de ouro nos vales dos rios Doce, das Velhas e das Mortes, que constituíram as três primeiras zonas de exploração e ocupação luso-brasileira do território mineiro. Não se sabe ao certo quando se deu o primeiro achado. Historiadores mais antigos, como o inglês Charles Boxer, datam-no da primeira metade da década de 90, mas a historiografia contemporânea tem recuado em algumas décadas a possibilidade de que reservas de ouro já tivessem sido localizadas, principalmente por exploradores paulistas, no vasto espaço e desconhecido espaço ao norte da capitania de São Paulo.i
Não há dúvida de que foi decisiva na conquista luso-brasileira desse espaço a última bandeira comandada pelo paulista Fernão Dias Pais, que entre 1674 e 1681 incursionou pelo chamado “sertão dos cataguás” e fundou os primeiros arraiais mineiros, no vale dos rios Paraobeba e das Velhas. Dessa expedição participaram três homens cuja trajetória individual se mistura às primeiras linhas de povoamento do território mineiro: Manoel da Borba Gato, que dará início à colonização do vale do rio das Velhas, tornando-se, nas primeiras décadas do Setecentos, a principal autoridade nessa zona aurífera; Garcia Rodrigues Pais, responsável, a partir dos últimos anos do século XVII, pela abertura do chamado “Caminho Novo” entre o Rio de Janeiro e as minas; e Matias Cardoso de Almeida, que, na década de 90 estabelecerá fazendas de gado no médio São Francisco, dando início à valorização econômica dessa região.
Logo o sertão dos cataguás se torna as “Minas Gerais”, denominação inicialmente utilizada para as áreas minerais onde as jazidas podiam ser livremente apossadas por quem as ocupasse primeiro, não passando pelo controle das autoridades nomeadas pelo governo colonial. O avanço das descobertas para além dos primeiros núcleos generalizou o topônimo, que passou a aludir à extensão das minas que se foram revelando.
Em 1709, quando a revelação pública do ouro datava de apenas uma década e meia, era essa a paisagem das Minas Gerais:
A sede insaciável do ouro estimulou a tantos a deixarem suas terras e a meterem-se por caminhos tão ásperos como são os das minas, que dificultosamente se poderá dar conta do número de pessoas que atualmente lá estão. Contudo, os que assistiram nelas nestes últimos anos por largo tempo, e as correram todas, dizem que mais de trinta mil almas se ocupam, umas em catar, e outras em mandar catar nos ribeiros do ouro, e outras em negociar, vendendo e comprando o que se há mister não só para a vida, mas para o regalo, mais que nos portos do mar.
Cada ano, vêm nas frotas quantidade de portugueses e de estrangeiros, para passarem às minas. Das cidades, vilas, recôncavos e sertões do Brasil, vão brancos, pardos e pretos, e muitos índios, de que os paulistas se servem. A mistura é de toda a condição de pessoas: homens e mulheres, moços e velhos, pobres e ricos, nobres e plebeus, seculares e clérigos, e religiosos de diversos institutos, muitos dos quais não têm no Brasil convento nem casa.i

Tratava-se da primeira corrida do ouro do continente, que mais tarde se repetiria em outras regiões da América. Três vias davam acesso a essa região tumultuada. A primeira delas era o antigo Caminho Geral do Sertão, por meio do qual a região era acessada a partir das vilas paulistas. Era uma rota secular, havendo a possibilidade de que tenha servido a incursões a partir da capitania de São Vicente já no século XVI.i Por essa via chegavam às minas bois, cavalos e muares vindos do extremo sul da colônia e os produtos enviados diretamente das vilas paulistas – gado bovino, toucinho, aguardente, açúcar, milho, trigo, marmelada, frutas, panos, calçados, drogas e remédios, algodão, ferramentas e artigos importados. Com a abertura da rota alternativa conhecida como “Caminho Novo”, a via paulista passa a ser o “Caminho Velho”.
Mais longo, mas mais fácil para os viandantes em razão da topografia plana dos terrenos que cortava, o segundo grande caminho fazia a ligação entre a sede da América portuguesa – a cidade de Salvador – e as minas. Pelo Caminho da Bahia chegavam, a partir do Recôncavo Baiano, escravos africanos e produtos europeus e, a partir do vale do São Francisco, a carne bovina gerada nas fazendas do “rio dos currais”.
Diferentemente dessas duas vias, abertas de forma mais ou menos espontânea por sertanistas autônomos, o terceiro caminho para as minas foi idealizado pelo governador Artur de Sá e Menezes com o objetivo de reduzir o tempo de viagem entre o litoral sul e as minas. Em algumas décadas o Caminho Novo estará pontuado por roças, pousos, ranchos e povoados, tornando-se a principal via de acesso às Minas Gerais. Pelo porto do Rio de Janeiro chegavam às minas, através do caminho aberto por Garcia Rodrigues, escravos negros, açúcar, aguardente, gado, feijão, arroz, farinha e produtos importados da Europa, entre eles os artigos de luxo que, com o refinamento social da capitania das Minas Gerais, passaram a ser crescentemente demandados pela população local.
A preponderância paulista nas minas e o afluxo de europeus, baianos e pernambucanos colocaram, já em 1709 e 1710, os dois grupos em conflito. A chamada Guerra dos Emboabas, nome pejorativo pelo qual os paulistas referiam-se aos forasteiros não-paulistas que chegavam, constituiu uma série de enfrentamentos entre os primeiros ocupadores do território e essa massa amorfa de imigrantes oriundos de outras partes da colônia, do reino e de outras nações européias.
A população da nova região colonial manteve desde sempre o perfil compósito que se tornaria a marca demográfica principal da capitania das Minas Gerais. O brasilianista Stuart Schwartz identifica os dois grandes movimentos populacionais para as minas: “uma imigração européia voluntária vinda do litoral e, principalmente, do norte de Portugal, e uma imigração negra forçada vinda do litoral e da África, principalmente do Golfo de Benin”.i Os números da população total das Minas Gerais crescem significativamente ao longo do século XVIII: 250 mil habitantes em 1720; 300 mil, que representavam 20% da população do Brasil, em 1775; e 400 mil por volta de 1800. Nessas cifras teve sempre participação majoritária a população negra e mulata. Em 1800, nada menos do que 40,9% dos habitantes das Minas Gerais eram negros e 33,7% mulatos, um resultado evidente de um fluxo de escravos africanos que em 1720 já era de 5.000 a 6.000 pessoas por ano.
A mestiçagem e as trocas materiais e culturais resultantes do contato entre grupos étnicos de diferentes procedências são atualmente um dos temas preferidos da historiografia sobre as Minas Gerais. Uma profusa produção histórica tem destacado a importância dos saberes técnicos trazidos por homens e mulheres embarcados na Costa da Mina em direção ao Brasil. Para Eduardo França Paiva, esses africanos
conheciam muito mais sobre a matéria [das técnicas de mineração de ouro e de ferro] do que os portugueses, antigos parceiros comerciais dos reinos negros da África, vorazes consumidores do ouro desse continente e senhores de enorme extensão territorial no Novo Mundo.i

Para o mesmo autor, tão importante quanto a transmissão de técnicas extrativas foi a mestiçagem cultural, por meio da qual costumes africanos foram transplantados para o continente americano, recriando a África na América.i
Nem tudo, todavia, eram trocas positivas. A mistura de povos oriundos de distintas regiões africanas, falantes de línguas diferentes e algumas vezes inimigos na África foi uma estratégia bem-sucedida empregada pelas autoridades coloniais para dividir a população negra e assim evitar o risco de uma possível revolta escrava generalizada nas minas.
Se não ocorreu essa rebelião escrava ampla, como se daria entre 1791 e 1803 no Haiti, reações negras em escala menor deram origem aos quilombos, núcleos formados nas áreas remotas da capitania por africanos que não se sujeitaram à escravidão. Esses núcleos “rebeldes” de povoamento já foram caracterizados como zonas de extraterritorialidade, no sentido de que se colocavam fora da esfera de soberania territorial da Coroa portuguesa, confrontando radicalmente o poder dos senhores brancos.i
Nem todos, obviamente, ousavam se rebelar com esse grau de radicalidade. Um sem-número de estratégias defensivas, ou atenuadoras da condição escrava, foram desenvolvidas no cotidiano como forma de tornar suportável a vida nas unidades de extração mineral e nos núcleos urbanos formados por elas. No limite, colocava-se a remota perspectiva da alforria, por meio da qual o escravo comprava a sua liberdade ao longo de alguns anos. Para a historiadora Júnia Furtado, parte da população forra encontra espaço junto às elites, identificando-se e misturando-se a ela. Uma outra parcela permanece nas fímbrias do sistema, imersa em um universo de desclassificação.i
Essa camada de negros e mulatos livres e desclassificados se somava aos brancos que não conseguiram espaço na sociedade para formar o contingente de mendigos, errantes e vadios que perambulava sem trabalho pelos núcleos mineradores. Essa constituiu outra fonte de preocupação das autoridades coloniais.
Para os estratos médios e superiores da população branca os problemas eram outros. A Coroa Portuguesa implantou nas Minas Gerais uma rede de tributos que incidiam sobre todas as mercadorias que entravam na região. Pagava-se, nos postos de controle instalados ao longo dos caminhos, denominados registros, para passar com uma boiada, um comboio de escravos, uma carga de provisões, ferramentas ou artigos de luxo. Nas travessias dos rios direitos de passagem eram cobrados sobre viajantes e animais de carga. Os dízimos reais eram cobrados rotineiramente da população. E, sobretudo, o quinto régio, por meio do qual tributavam-se a produção e a circulação de ouro na capitania. As formas de tributação direta sobre a atividade mineradora variaram ao longo do século, passando por soluções como as casas de fundição, nas quais o ouro era convertido em pó e taxado, e a capitação, imposto pago sobre cada escravo envolvido com a extração mineral.

Essa ampla rede tributária gerou os seus corolários inevitáveis: o contrabando e a falsificação de moedas. Antonil estima, em 1709, que menos de um terço do ouro retirado das minas era tributado. O Caminho da Bahia, por ser uma rota aberta, com muitas variantes e escasso patrulhamento, tornou-se a rota privilegiada do contrabando. Formaram-se assim os descaminhos, ao longo dos quais atuavam homens como Manuel Nunes Viana. Consta que o potentado português tenha chegado a possuir 50 arrobas de ouro, o que teria amealhado não só na criação de gado e exploração de lavras de ouro, como também no contrabando de mercadorias que lhe eram remetidas do Recôncavo Baiano.
As revoltas eram outras das conseqüências da tributação. Em 1720 eclodiu a primeira, em Vila Rica e na Vila do Ribeirão do Carmo, no contexto da queixa geral das vilas do ouro contra a cobrança do quinto. Os insurgentes invadiram a casa do juiz, em Vila Rica, e marcharam para a vila vizinha, sitiando o governador. Ameaçado, Dom Pedro de Almeida, o Conde de Assumar, concordou momentaneamente com as exigências dos amotinados, para em seguida reprimir duramente o movimento. O tropeiro Filipe dos Santos, um dos líderes, foi enforcado, esquartejado e teve a cabeça colocada no pelourinho de Vila Rica e os quartos expostos nos arraiais da região.

Em 1736 foi a vez das rebeliões sertanejas. Indignada com o propósito das autoridades coloniais de implantar no sertão do São Francisco o imposto da capitação, que seria cobrado numa região de jurisdição administrativa indefinida e tradicionalmente envolvida com uma atividade não mineradora – a criação de gado bovino –, a população local se rebelou e confrontou os representantes régios em povoações como Barra do Rio das Velhas, Montes Claros, São Romão e Brejo do Salgado.
Mais diretamente relacionada às estruturas do poder metropolitano foi a conspiração que se tornou conhecida como Inconfidência Mineira. A série de episódios, iniciada em 1789, que culminaram com o enforcamento e esquartejamento do seu líder mais carismático e com punições rigorosas para os demais, é uma das referências identitárias mais arraigadas em Minas Gerais. Por um longo tempo o movimento foi associado a um espírito nativista e liberal que teria antecedido e mesmo preparado o caminho para a Independência. Pesquisas históricas recentes têm, todavia, atenuado essa interpretação, apontando o caráter de reforma – e não de ruptura – das relações entre a metrópole e a colônia que estava na origem da conspiração. Nessa linha de análise têm peso decisivo a defesa, pelos inconfidentes, da manutenção do trabalho escravo na nova ordem social que se criaria após o levante e a sua hesitação na adoção de um programa político radicalmente liberal-democrático, nos moldes norte-americano ou inglês.i
Diferentemente das zonas canavieiras do litoral, implantadas numa base rural, as Minas Gerais foram desde sempre uma região colonial intensamente urbanizada. Sérgio Buarque de Holanda, num texto clássico sobre a região, comenta a “constituição de arraiais mais ou menos populosos e freqüentemente pouco apartados uns de outros” nos primeiros tempos da mineração.i Já em 1711 os arraiais mais prósperos são elevados à categoria de vila: Vila Rica (Ouro Preto), Ribeirão do Carmo (Mariana) e Vila Real do Sabará (Sabará). De 1713 é a Vila de São João del-Rei e do ano seguinte a Vila Nova da Rainha (Caeté) e a Vila do Príncipe (Serro). Em 1715 criou-se a Vila do Infante de Nossa Senhora de Pitangui (Pitangui) e em 1718 fundou-se a Vila de São José del-Rei (Tiradentes).
Em 1777 a capitania estava dividida em quatro comarcas (Vila Rica, Rio das Mortes, Rio das Velhas e Serro do Frio), pelas quais se distribuíam as oito vilas da capitania, todas elas, como se detalhou no parágrafo anterior, criadas até 1718.i No fim do período colonial, com a criação da comarca de Paracatu (1815), eram cinco as comarcas. Haviam então 15 vilas e uma cidade (Mariana).i

Nas vilas mineradoras são edificadas as igrejas, muitas delas construídas com recursos providos pelas irmandades religiosas. As primeiras são de madeira e taipa ou de pau-a-pique e teto de sapê. No meado do século inicia-se a construção de templos maiores, com paredes de pedra, tetos de telha e fina decoração interior. Exemplares notáveis da arquitetura religiosa são distribuídos não só pelas vilas do ouro, mas também ao norte, no Distrito Diamantino, onde desde a década de 30 do Setecentos se instalara uma próspera região de extração diamantífera, sediada no antigo arraial do Tejuco.
Uma intensa movimentação cultural marca a vida desses núcleos urbanos. As festas públicas eram muito comuns como comemoração dos mais diversos eventos, tais como posse de autoridades civis, militares ou eclesiásticas; casamentos de príncipes; coroações ou aclamações de soberanos; vitórias em embates diplomáticos. Os festejos podiam incluir colocação de luminárias nas fachadas das casas, celebração de missas, Te Deums, repicar de sinos, músicas e danças, desfiles, fogos de artifício e encenações teatrais.i
Um texto de 1734 permite formar uma idéia do brilho que tiveram as vilas do ouro enquanto durou a prosperidade da economia mineradora:
Nesta vila [Vila Rica] habitam os homens de maior comércio, cujo tráfego e importância excede sem comparação o maior dos maiores homens de Portugal: a ela, como a porto, se encaminham, e recolhem as grandiosas somas de ouro de todas as Minas na Real casa da Moeda: nela residem os homens de maiores letras, seculares, e eclesiásticos: nela tem assento toda a nobreza, e força da milícia; é por situação da natureza cabeça de toda a América, pela opulência das riquezas a pérola preciosa do Brasil.i
Em estreita correlação com a tendência urbanizadora está o perfil social adquirido pela sociedade mineradora. Diferentemente da zona canavieira, de rígida estratificação social, a região das minas caracterizou-se, desde os primeiros tempos da extração mineral, pelo que Sérgio Buarque de Holanda não hesitou em caracterizar como “cunho democrático assumido pela ocupação do território”.i Essa linha de análise pode ser relativizada e houve historiadores que se empenharam em demonstrar que, apesar das aparências, também nas minas estiveram presentes a estratificação e a hierarquização social.i De toda forma, quando comparada a outras regiões coloniais da América portuguesa, em particular à sociedade açucareira, a formação social das Minas Gerais apresenta três características distintivas que reforçam o primeiro ponto de vista: a mobilidade entre os diversos segmentos sociais, a relativa desconcentração da propriedade e o baixo capital inicial necessário para a instalação do empreendimento produtivo. Dados fornecidos pelo próprio Jacob Gorender mostram que em 1717 a grande maioria – 81,2% – dos proprietários de escravos em Minas Gerais tinha entre 1 e 9 escravos.i O fator de produção mais importante para a atividade econômica estava, portanto, diluído entre um número relativamente grande de proprietários. Esse perfil levou à formação de setores médios importantes na sociedade mineradora. Nas vilas instalaram-se os mais diversos ofícios mecânicos e mercantis, ligados direta ou indiretamente à atividade econômica principal da região.
Esse perfil social e econômico foi decisivo para ampliar a extração mineral nas Minas Gerais, tornando-a, no auge da atividade, uma das mais importantes regiões econômicas do Império português. Dados citados por Júnia Furtado dão conta de que ao longo do século XVIII a produção oficial de ouro chegou a 650 toneladas, enquanto a de diamantes foi de pouco mais de três milhões de quilates.i
A partir do meado do século, quando a curva da extração aurífera atinge o seu ponto máximo, a produção mineral começa a declinar. Permanecerá em declinação irreversível até a passagem para o século XIX, quando a outrora pujante atividade mineradora estará em franca decadência. A paisagem urbana que aqui encontram e retratam viajantes estrangeiros como Saint-Hilaire, nas primeiras décadas do Oitocentos, é uma pálida lembrança do antigo esplendor da primeira metade do século XVIII. No último quartel do século do ouro se iniciara, em correlação direta com a decadência da atividade mineradora, a diversificação econômica de Minas Gerais, apoiada na expansão das áreas de produção agropecuária e na ruralização da paisagem social mineira. Será com essa nova configuração socioeconômica que Minas Gerais chegará ao período do Império.